Confesso que cheguei ao campus da URI, na Avenida Sete de Setembro, em Erechim, sem grandes expetativas. A noite de segunda-feira (30) já havia caído, depois de um dia corrido. A ideia, em essência, era acompanhar a abertura do V Congresso Internacional de Gestão, Tecnologia e Inovação (Conigti) da Universidade, coletar uma palavrinha do diretor Paulo Roberto Giollo, que falaria sobre a importância do evento (que seguiu até ontem, 4), e voltar para casa jantar. Quem sabe, por recomendação do colega jornalista e amigo Ademar Costa, colheria, também, uma frase do palestrante. Duas linhas, talvez. Protocolar.
No entanto, o professor Gil Giardelli (palestrante em questão) não é nada protocolar ou convencional - a começar pelo seu currículo, que inclui formações no Massachusetts Institute of Technology (MIT), Stanford University e na Universidade de São Paulo (USP).
Decidi, pois, a partir de uma breve conversa com Giardelli, deixar a janta para mais tarde. Era óbvio que o ‘cara’ tinha muito a dizer - e, sob esta perspectiva, a curiosidade/fome pelo conhecimento venceu.
Da plateia, ao lado de dezenas de olhares curiosos e atentos tanto de professores quanto de acadêmicos dos cursos de Engenharias, Arquitetura, Ciências da Computação e outros, tive uma aula sobre ‘futuro inteligente e inovação, ou melhor, além dela’.
Fiquei estarrecido, preocupado, sorri e quase chorei diante das incertezas que esse mundo novo e acelerado nos trará - onde todos estamos na berlinda e, queiramos ou não, precisamos nos adaptar.
A seguir, aos leitores do Bom Dia, tento trazer um apanhado de algumas ideias e considerações de Giardelli, que também é membro da Federação Mundial de Estudos do Futuro, em Paris/França, e da World Future Society, em Chicago/EUA. Boa leitura:
Vou abusar do teu poder de síntese. O que vem por aí para a humanidade?
Giardelli – A nova fronteira de estudos é Globotics e a Sociedade 5.0. As tendências consonantes da globalização e da robótica (Globotics) inauguram um período de ruptura sem precedentes, que tem deslocado trabalhadores no ritmo mais rápido da história. Os trabalhadores de chão de fábrica foram os primeiros a serem afetados, agora é a vez dos executivos serem deslocados. Holografia, coworkings, mudanças de vínculo de trabalho, GIG Economy, Economia Circular, P2P são sinais da revolução do Globotics, AI Economy e imigrantes digitais.
Sobre Globotics, gostaria de entender melhor...
O Globotics utiliza a interação homem e máquina. O casamento entre a tecnologia e a disponibilidade de profissionais super qualificados permite essa conexão cada vez mais próxima. Embora a geolocalização tenha sido superada no advento da internet, hoje a linguagem também deixou de ser uma barreira, com o desenvolvimento de aplicações que possuem a capacidade de traduzir simultaneamente tanto o discurso falado quanto textos e imagens. Pode-se dizer que qualquer pessoa de qualquer lugar consegue se comunicar e se fazer entender. O Machine Learning revolucionou mais uma vez o processo comunicacional.
O senhor fala em nova ‘fisicalidade’. O que é isso?
Os mecanismos de holograma, realidade estendida, telepresença, realidade aumentada e até realidade virtual, promovem o que tem se chamado de um novo tipo de ‘fisicalidade’, com estratégias de interação diversificadas. Hoje, é possível alcançar diferentes níveis de interação espontâneos, que permitem que as pessoas estejam mais próximas e que todo o processo de comunicação não sofra pela distância geográfica. O uso de robôs, como o Double, por exemplo, permite que a pessoa se desloque e converse através de uma câmera, microfone e caixas de som; experimentos psicológicos mostram como a telepresença influencia positivamente no relacionamento de longa distância entre pessoas.
Quando fala em Sociedade 5.0, do que estamos tratando?
Vamos por ordem. A Sociedade 1.0 baseava-se na relação caçador-coletor; a 2.0 foi a sociedade agrícola; a 3.0, industrializada; e a 4.0, da informação. A Sociedade 5.0, por sua vez, emerge da Quarta Revolução Industrial, que cria novos valores e serviços, um após o outro, trazendo uma vida mais rica para todos. A essência da ‘Society 5.0’ é que será possível obter rapidamente a solução mais adequada que atenda às necessidades de cada indivíduo, como nos ensinou o primeiro ministro japonês, Shinzo Abe. Aliás, foi ele quem, durante seu período de oito anos na função revitalizou a economia do Japão, promovendo ‘Abenomics’, que consiste em ‘três setas’: flexibilização monetária, estímulo fiscal e uma estratégia de crescimento.
Sociedade 5.0 e tecnologia. Como se dá essa relação?
Penso que qualquer produto ou serviço será entregue de forma ideal às pessoas e adaptado às suas necessidades. Ao mesmo tempo, a Sociedade 5.0 irá receber os desafios sociais, como a formação da população, a polarização social, o despovoamento e as instalações relacionadas à energia e ao meio ambiente. Na Society 5.0, veículos e caminhões autônomos trarão bens e serviços para pessoas em áreas despovoadas. Teremos a popularização dos exames à distância. Um robô aspirando o carpete na casa de repouso cuidará dos idosos. Na cozinha do asilo, a geladeira estará monitorando a condição dos alimentos estocados. A cidade será alimentada por energia elétrica de forma flexível.
Como superar os desafios?
Temos que rediscutir o papel do Capitalismo, visto que a turbulência é o novo normal. É preciso, de igual modo, nos voltarmos à Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, estabelecendo estratégias de direitos humanos, reforma regulatória, dados abertos/segurança cibernética e governança mundial de dados.
Mais frases de Gil Giardelli:
‘O futuro é dos cérebros’.
‘No século 21, nenhuma ideia deve ser descartada. Até porque, se você não colocar sua ideia para funcionar em um ano, alguém fará por você’.
‘A economia do intangível está em ascensão’.
‘É preciso repensar o capitalismo, criando um mundo partilhado num sistema fraturado’.
‘Quem olha o mundo com a lupa do século passado está fadado a fracassar’.
‘O Brasil, enquanto país, precisa tomar decisões (em relação ao futuro). Não podemos ficar em cima do muro; Aliás, esse muro está muito alto’.
‘Todos terão de ser cientistas de dados’.