O mês de julho marca os 28 anos da dissolução do Pacto de Varsóvia – que vigorou entre 1955 e 1991, envolvendo sete países do Leste Europeu durante o período da Guerra Fria: União Soviética (URSS), República Democrática Alemã (RDA), Tchecoslováquia, Hungria, Romênia, Bulgária e Polônia. O acordo previa cooperação e apoio recíproco entre as nações, sob o comando russo.
Entre os que viveram na pele aquele período está o médico erechinense Valdir Kaplan, que à época cursava a faculdade de Medicina na Polônia.
‘Lembro que o Pacto foi dissolvido no ano anterior ao meu retorno ao Brasil. Naquele período, estava trabalhando no Hospital, em Bialystok (Polônia), quando soube da notícia. Foi um momento especial, afinal, era o fim da opressão’, narra o médico – que fez parte do Movimento Solidariedade, defensor do fim do acordo.
Reunião em Praga
Por mais que tivesse contribuído decisivamente para o fim do Pacto de Varsóvia, o ex-presidente da União Soviética, Mikhail Gorbatchev, não participou da reunião de dissolução do acordo, lembra Kaplan. Na ocasião (1o de julho de 1991, em Praga, na Tchecoslováquia) Gorbatchev enviou seu vice, Gennady Yanayev. Foi ele a escutar do então presidente tcheco e ex-dissidente Václav Havel: "Hoje o Pacto de Varsóvia deixou de existir", ao quê todos aplaudiram, menos Yanayev.
O que foi o Pacto
A aliança dos países do Leste Europeu existiu durante 36 anos e, oficialmente, teria sido uma reação à adesão da República Federal da Alemanha (RFA) à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
Conforme Kaplan, no entanto, logo ficou demonstrado que o Pacto de Varsóvia não era apenas uma liga de defesa – o que se queria era assegurar o controle da URSS sobre o Leste. ‘A repressão, pelas tropas do pacto, da Revolução Popular Húngara, em 1956, ou da Primavera de Praga, em 1968, são exemplos disso’, destaca o médico que lembra também uma sensação geral de ‘tranquilidade’ na Polônia, no período, apesar de diversas restrições. ‘O cidadão comum não tinha muitas informações. Sabia-se, contudo, que o Pacto era uma força oposta à Otan. Havia, porém, claro descontentamento com o sistema’.
Fim do Pacto
Nos anos 80 começou, de fato, a virada política, com o movimento trabalhista polonês Solidarnosc (Solidariedade) – no qual Kaplan participou como simpatizante-colaborador, além das reformas na União Soviética conhecidas como Glasnost e Perestroica, que culminaram mais tarde na queda da Cortina de Ferro e do Muro de Berlim, e, na sequência, com as negociações para a Reunificação da Alemanha.
Em setembro de 1990, apenas pouco antes da Reunificação alemã, a RDA se retirou do Pacto de Varsóvia. No prazo de alguns dias, cerca de 360 mil integrantes do Exército Nacional do Povo se tornaram soldados da Otan. Um número equivalente de soviéticos deixou o Leste da Alemanha até 1994.
Ampliação da Otan para o Leste
O então presidente soviético Gorbatchev, lembra Kaplan, parecia esperar que em breve se criasse uma nova estrutura de segurança na Europa. Mas a Otan sobreviveu ao fim do Pacto de Varsóvia. E logo cresceria, já que os antigos integrantes da aliança do Leste queriam mudar rapidamente de lado e contar com a proteção da Aliança Atlântica.
Em busca de proteção
Depois de a RDA abandonar o Pacto de Varsóvia, a Tchecoslováquia e a Hungria foram as primeiras a anunciar o desejo de se filiar à Otan, seguindo-se a Bulgária. A Polônia, onde no início da década de 1990 ainda estavam estacionados 60 mil soldados soviéticos, também queria aderir o mais rápido possível às estruturas ocidentais, mas ninguém ousava dizê-lo em voz alta.
Com o fim do Pacto em meados de 1991 e o subsequente declínio da União Soviética, o processo ganhou nova dinâmica. A prioridade inicial foi integrar os Estados fronteiriços com os membros da Otan. Em 1999, Polônia, República Tcheca e Hungria se uniram à Aliança – enquanto a Bulgária e os demais ainda tiveram que esperar até 2004. Nestas datas, Kaplan, que colaborou enquanto e como pode com o fim do Pacto (com caronas e outras ações junto ao Solidariedade), já estava de volta aos pagos exercendo Medicina de Família e cuidando de vidas no Alto Uruguai.