O atraso na fala costuma ser um dos primeiros sinais percebidos pelos pais quando há alguma preocupação em relação ao desenvolvimento infantil. No entanto, a comunicação não se resume à quantidade de palavras que a criança pronuncia. A forma como ela compreende o que é dito, utiliza gestos, interage, brinca, aprende e demonstra suas necessidades também faz parte desse processo.
Segundo a fonoaudióloga Jéssica Rustik, o desenvolvimento da linguagem ocorre de maneira gradual nos primeiros anos de vida. O bebê começa a utilizar balbucios, olhares, expressões e gestos para se comunicar e, posteriormente, passa a compreender palavras e ordens simples, dizer as primeiras palavras, combinar termos e formar frases.
“Os marcos do desenvolvimento servem como um parâmetro para a gente realmente verificar se está em atraso ou não está”, aponta Jéssica. Por volta de 1 ano, é esperado que a criança comece a falar as primeiras palavras e apresente intenção comunicativa, ainda que utilize principalmente gestos e olhares. Entre 1 e 2 anos, o vocabulário tende a aumentar e, próximo dos 2 anos, a criança começa a combinar duas palavras. Entre 2 e 3 anos, ocorre uma ampliação importante do vocabulário e da capacidade de comunicação. Aos 4 anos, já é esperado que consiga relatar acontecimentos e recontar histórias. Por volta dos 5 anos, o desenvolvimento dos sons da fala tende a estar mais completo.
“É importante também lembrar que cada criança tem sim o seu ritmo, mas existe essa faixa de desenvolvimento esperado, então é importante observar isso e os pais estarem atentos se acaso verificarem que está em atraso e se está em dúvida também, buscar um auxílio para fazer uma avaliação e o profissional, que é o fonoaudiólogo, direcionar da melhor forma”, explica.
Quando o atraso merece investigação
A diferença entre um ritmo individual de desenvolvimento e uma dificuldade que precisa ser investigada não está apenas no momento em que a criança começa a falar. A persistência da dificuldade, a ausência de evolução e a presença de outros sinais podem indicar a necessidade de uma avaliação.
“Existe uma grande diferença entre respeitar o ritmo individual da criança e os sinais que estão em atraso”, afirma Jéssica.
Entre os aspectos que merecem observação estão a pouca fala para a idade, a ausência de ampliação do vocabulário, dificuldades para compreender o que é dito, falta de resposta aos sons do ambiente, ausência de gestos comunicativos e de apontar, pouco interesse em interagir com adultos ou outras crianças, contato visual reduzido, dificuldade para brincar ou imitar e problemas para responder perguntas ou iniciar interações.
Outro sinal que requer atenção é a perda de uma habilidade que já havia sido adquirida. Nesses casos, a orientação é procurar avaliação profissional o quanto antes.
A avaliação, porém, não representa necessariamente a existência de um diagnóstico. “A avaliação ela também não significa necessariamente que existe um diagnóstico. Significa que a gente vai olhar para essa criança como um todo, compreender ela, ver o que ela está conseguindo fazer, o que não está, quais são as dificuldades e como a gente pode ajudar ela a desenvolver a parte comunicativa”, explica Jéssica.
Comunicação vai além das palavras
Para a psicopedagoga e A.T. Joseana Onhate, o atraso na fala precisa ser analisado dentro de um conjunto mais amplo de habilidades. A criança pode apresentar dificuldades simultâneas na interação social, no brincar, na atenção, na imitação, na aprendizagem ou na autonomia.
“Por isso, o atraso na fala pode ser um sinal que chama a atenção, mas é importante olhar para a criança como um todo e entender como ela está se desenvolvendo nas diferentes áreas”, pontua Joseana.
Alguns sinais podem acabar sendo interpretados pelos pais como características da personalidade ou como uma fase passageira. Uma criança que fala pouco e também demonstra pouco interesse em compartilhar brincadeiras, não aponta, não utiliza gestos para se comunicar ou apresenta dificuldade para imitar, por exemplo, pode precisar de uma observação mais cuidadosa.
A dificuldade pode aparecer ainda em situações cotidianas. Problemas para seguir instruções simples, aprender novas habilidades, brincar de diferentes maneiras ou lidar com mudanças de rotina são alguns dos aspectos que podem ser considerados. Na idade escolar, dificuldades para acompanhar os colegas, compreender propostas, reconhecer letras e números ou avançar na leitura e na escrita também podem fazer parte do quadro observado.
A autonomia é outro ponto a ser acompanhado. Dificuldades persistentes para se alimentar, vestir-se, cuidar da higiene, organizar materiais ou realizar pequenas tarefas compatíveis com a idade podem indicar necessidade de maior apoio.
A maneira como a criança reage à dificuldade de se comunicar também pode oferecer informações. Choro, irritação e frustração frequentes podem ocorrer quando ela não consegue expressar o que deseja.
“Isoladamente, um desses comportamentos não significa necessariamente que exista um transtorno ou diagnóstico. O mais importante é observar o conjunto de sinais e o impacto deles no dia a dia da criança”, afirma Joseana.
O papel do brincar e da interação
A psicóloga e supervisora ABA Lilian Cássia Nascimento, chama atenção para comportamentos que podem aparecer durante as brincadeiras e nas relações com outras pessoas. Antes mesmo da fala, a criança já utiliza diferentes formas de comunicação, como olhar, expressão facial, gestos, apontar e imitação.
“Algo muito importante é ver a qualidade da brincadeira da criança, ela só enfileirar brinquedos ou enfim, não dar a função apropriada para o brinquedo é um sinal sútil, mas importante”, explica Lilian.
A observação também pode considerar se a criança desenvolve brincadeiras simbólicas, nas quais utiliza a imaginação, e se procura outras pessoas para brincar. Isolamento, dificuldade para responder quando é chamada pelo nome, alterações no sono, restrições alimentares, dificuldade para lidar com mudanças e reações intensas a sons ou luzes são outros aspectos que podem ser considerados em uma avaliação.
Esses sinais não devem ser analisados de maneira isolada. O que importa é compreender a frequência, a intensidade e o impacto que apresentam na rotina da criança.
“Cada criança tem seu tempo”
A frase de que “cada criança tem seu tempo” é comum quando o assunto é desenvolvimento infantil. Para Lilian, respeitar o ritmo individual não significa deixar de observar possíveis dificuldades.
“Na minha visão algo que é essencial quando pensamos em tratamento ou desenvolver habilidades é pensar pela ótica do sofrimento ou prejuízo no cotidiano. Então, precisamos pensar se aquele atraso que talvez os pais estão esperando o tempo da criança ‘chegar’ está causando prejuízo no dia a dia dela, por exemplo, um atraso na fala que gera dificuldade da criança se comunicar e ela se frustra, chora, se irrita porque não é entendida”, explica.
Quando a dificuldade interfere na comunicação, na aprendizagem, nas relações ou em atividades cotidianas, a avaliação pode ajudar a esclarecer o que está acontecendo. Também pode haver fatores ambientais, oportunidades de estímulo ou outras características do desenvolvimento envolvidos, sem que isso signifique necessariamente a presença de um transtorno.
Para Lilian, buscar avaliação diante de uma dúvida pode ser útil mesmo quando nenhuma alteração significativa é encontrada.
“Buscar ajuda quando existe uma dúvida é importante. Se houver alguma dificuldade, a avaliação permite direcionar o caminho e possibilita que a criança receba o suporte necessário o quanto antes. E, se não houver nenhuma alteração significativa, a avaliação também pode trazer segurança e acolhimento para a família, além de orientações sobre como favorecer o desenvolvimento da criança”, conclui.
Por que investigar além da fala
A fala pode estar comprometida por diferentes razões, e por isso a avaliação não deve se limitar à contagem de palavras. Questões auditivas, aspectos cognitivos, motores da fala, atenção, interação, estímulos e características relacionadas ao neurodesenvolvimento podem estar entre os fatores considerados pelos profissionais.
Jéssica explica que uma avaliação fonoaudiológica observa não apenas a produção da fala, mas também a qualidade da comunicação, a compreensão, a interação, as brincadeiras, a maneira como a criança demonstra suas necessidades e a utilização da comunicação no cotidiano.
“O objetivo nunca é rotular uma criança, ou seja, não está falando, então tem um diagnóstico, mas sim, compreender as suas necessidades e favorecer esse desenvolvimento”, afirma.
A profissional orienta os pais a não esperar indefinidamente diante de uma preocupação. “Às vezes não significa que é algo grave, mas significa cuidar e investigar essa criança no momento certo, até para estimulação também ser mais adequada e trazer ganhos para criança”, frisa Jéssica.
Avaliação multidisciplinar amplia a compreensão
Quando há sinais em diferentes áreas do desenvolvimento, a participação de profissionais de especialidades distintas pode contribuir para uma compreensão mais ampla. Fonoaudiólogos, psicólogos e psicopedagogos observam aspectos diferentes e podem compartilhar informações sobre o comportamento da criança em contextos variados.
A fonoaudiologia pode avaliar comunicação, linguagem e compreensão. A psicopedagogia observa o processo de aprendizagem, a resposta às propostas e as estratégias que facilitam a aquisição de habilidades. Já a psicologia pode contribuir para a análise de aspectos emocionais, comportamentais, sociais e do desenvolvimento.
Família e escola também fornecem informações importantes, pois acompanham a criança em situações diferentes. Uma dificuldade que aparece em casa pode não se manifestar da mesma maneira na escola, assim como um comportamento observado no ambiente escolar pode não ocorrer no convívio familiar.
Na atuação como psicopedagoga e A.T., Joseana relata que a observação em situações práticas, como brincadeiras, atividades e momentos de interação, permite analisar como a criança responde às demandas do ambiente e quais habilidades já desenvolveu.
A troca entre profissionais, família e escola pode ajudar a identificar padrões, acompanhar mudanças e definir estratégias de acordo com as necessidades da criança. A avaliação precoce também permite que eventuais dificuldades sejam identificadas e trabalhadas antes que produzam impactos maiores em outras áreas do desenvolvimento.
“A investigação não deve ser vista como uma busca imediata por um diagnóstico, mas como uma forma de compreender melhor aquela criança. Quanto mais cedo entendermos quais são suas dificuldades e também suas potencialidades, mais conseguimos oferecer os estímulos e os apoios adequados”, afirma Joseana.