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Opinião

O jornalismo e o espetáculo

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Marcelo V. Chinazzo
Por Marcelo V. Chinazzo – Pai do Miguel e do Gael, jornalista e escritor
Foto Marcelo V. Chinazzo

Alguém já dizia que perguntar não ofende, mas não é bem assim. Algumas perguntas ofendem e constrangem e pior, desnecessariamente. No jornalismo, podemos dizer que existem dois tipos de perguntas, as que precisam ser feitas e as feitas porque podem render um corte, um clique ou alguns minutos de fama. O problema começa quando deixamos de perguntar para informar e passamos a perguntar apenas por espetacularização.

Outro dia, um caso desses me chamou atenção. As atrizes Regina e Gabriela Duarte voltaram a dividir um palco depois de anos, em um reencontro com elementos suficientes para render várias pautas, com arte, família e muita história, mas foi descambando para política.

Era proibido perguntar sobre? Evidentemente, não. Mas a questão nunca é apenas o que se pode perguntar, é também por que, quando e como perguntar. Nós, jornalistas precisamos fazer perguntas difíceis, inclusive aquelas que ninguém gostaria de responder e, muitas vezes até, nem nós gostaríamos de perguntar. Tirar o entrevistado, e a nós mesmos, da zona de conforto faz parte do jogo. Mas toda pergunta difícil é uma boa pergunta? Todo constrangimento produzido é sinônimo de jornalismo de qualidade? Acredito que não. Existe uma diferença enorme entre incomodar em nome da informação e constranger em nome do engajamento. E é essa diferença que parece estar sendo esquecida.

Gabriela foi precisa ao reconhecer que nós devemos fazer perguntas difíceis, mas também ao questionar a insistência quando ela parece buscar uma reação e não uma resposta. Quando o desconforto se torna mais importante que a informação, quando a meta é arrancar uma frase para transformá-la em manchete ou em um vídeo viral, já não estejamos diante do jornalismo, mas do conteúdo e conteúdo não é necessariamente informação.

E a política, felizmente ou infelizmente, é um prato cheio para isso. Quanto mais se provoca, “melhor” é o resultado e o algoritmo agradece. O problema é quando a métrica passa a valer mais que a relevância, a ética e o contexto. E aqui não se trata de defender ou atacar mãe e filha, nem de discutir suas posições políticas. O ponto é outro, afinal uma pergunta política pode ser legítima, agora, o que não deveria ser, é transformar a política em instrumento de constrangimento porque o constrangimento dá audiência. Ainda mais ali, que o mote era a arte e o reencontro de mãe e filha nos palcos após tantos anos.

É triste pensar, mas o fato é que o jornalismo também pode ser desonesto mesmo sem mentir. Pode ser desonesto pela insistência, pelo contexto, pela escolha de uma pergunta em detrimento de outra ou pelo prazer de transformar o desconforto alheio em espetáculo. O jornalista não precisa ser imparcial, até porque a imparcialidade não existe e já falei aqui sobre isso algumas vezes, mas precisamos, impreterivelmente, ser honestos, tanto na apuração quanto na escolha das perguntas e, sobretudo, na disposição para ouvir uma resposta que contrarie as nossas próprias convicções.

O jornalismo não é uma competição para descobrir quem deixa o entrevistado mais desconfortável. Somos uma forma de informar a população, apurar os fatos, chegando o mais perto possível da verdade. Por isso, a formação importa. Uma formação séria deveria ensinar que jornalismo não é simplesmente perguntar, é saber por que, quando e como perguntar e, principalmente, saber ouvir.

Entendo que o espetáculo dá resultado e a tentação é perigosa, mas não podemos regredir humanamente. Cada entrevista é um encontro entre seres humanos, onde o microfone deve servir para aproximar, não para encurralar pessoas. E isso, de forma alguma significa fugir do contraditório ou evitar assuntos espinhosos, significa reconhecer a diferença entre confrontar alguém em nome da informação e constrangê-lo em nome da audiência. A primeira coisa é jornalismo, a segunda é meramente espetáculo.

Talvez a pergunta mais incômoda não deva ser feita a nenhum entrevistado, mas a nós mesmos. “Que tipo de jornalistas estamos nos tornando?”. Não precisamos deixar de lado as perguntas difíceis e evitar os confrontos, precisamos entender que confronto sem propósito é apenas um espetáculo sem sentido para alimentar algoritmo e ego.

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