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Erechinense relata o drama após ficar três dias isolado na BR 386

Mauri Machado destaca a importância da união entre todos para superar situação e alimentar cerca de 250 pessoas

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Por Carlos Silveira e Emerson Carniel
Foto Arquivo pessoal

 

 Sabe quando o gosto pela vida se torna mais intenso, principalmente em momentos que não estamos acostumados a viver em nosso dia a dia ou quando não sabemos o que irá acontecer nos próximos minutos e a fé passa a ser a maior forma de se manter em pé?

         Pois foi este o sentimento vivido pelo erechinense Mauri Machado, supervisor de montagem industrial de 54 anos, casado e pai de uma filha que ficou juntamente com um grupo de 250  pessoas, isolado por três dias em um ponto da BR 386, mais precisamente perto do município de Marques de Souza.

 O motivo, bloqueios causados por deslizamentos de encostas, ou seja, ficaram em uma área sem poder seguir adiante ou voltar atrás devido as fortes chuvas que abalaram o estado na última semana. Durante a “estada” muita chuva, medo, aflição, dúvidas, saudades da família, resiliência, organização, espírito de equipe, mas acima de tudo muita união e solidariedade entre todos, o que fez toda a diferença, principalmente na divisão de água, leite e comida que tiveram acesso através da solidariedade de uma família de comerciantes moradora próximo ao local.  

O relato

         Mauri lembra que estava retornando à Erechim na última terça-feira, 28, cerca do meio-dia, quando chegou próximo à serra que começa depois da localidade de Pouso Novo, momento em que a Polícia Rodoviária Federal anunciou que a estrada estava intransitada por causa de barreira formada por deslizamentos. “Tentamos retornar de volta a Lajeado para ter um local mais seguro para se abrigar, mas ficamos ilhados em Marques de Souza, ou seja, não íamos nem para a frente e nem para trás. Ficamos perto de um estabelecimento comercial num total de 250 pessoas, isolados de qualquer coisa”.

Sem comunicação

         Para piorar ainda mais a situação, ficaram sem luz e sem comunicação via celulares para poder avisar amigos e familiares de que estavam enfrentando aquela situação naquele local, e que necessitavam de auxílio. “Uma situação bem caótica e triste o que passamos a vivenciar durante os três dias isolados de todos. Ficamos da terça-feira ao meio-dia até a sexta-feira as dez horas da manhã”.

Necessidades

         Com relação as necessidades básicas, Mauri lembra que banho não era possível pois não havia lugar, já que no comércio próximo não havia energia elétrica para movimentar o poço artesiano. “Tínhamos água mineral para tomar, a qual tivemos acesso, como de uma fonte próxima para fazer a alimentação. Havia somente um banheiro para todos, que foi necessária uma grande organização para que todos fossem atendidos. Houve uma ajuda mútua de todas as pessoas que estavam na mesma situação”.

Ações

         Dentre as medidas adotadas, foi a formação de uma barreira com um caminhão atravessado na pista próximo ao barranco, já que havia deslizamento a 200 metros de cada lado e os automóveis foram colocados em uma área mais abaixo caso houvesse alguma reação da natureza. “Já na quarta-feira pela manhã começamos a pensar em ações de sobrevivência, principalmente depois que a concessionária da estrada esteve no local para pegar dois funcionários e prometeu a ajuda o mais breve possível, só que não veio mais”.

Concessionária

         Ainda na quarta-feira a tarde passou um helicóptero, viu a situação, que acabou ficando na mesma até a sexta-feira. “A partir daí começamos uma operação de mobilização e busca de meios alternativos de sobrevivência. Nos dividindo em grupos para a alimentação juntamente com o proprietário do estabelecimento comercial, ou seja, um açougue, que abriu as portas, liberou o local e passou a ajudar a todos. Neste mutirão alguns faziam a comida, outros limpavam o local e lavavam a louça usada por todos”.

Comida

         Mauri destaca que a comida era servida nos mais diversos recipientes e que ninguém passou fome ou sede durante os dias em que estiveram juntos. “A organização foi um ponto crucial, pois tínhamos idosos, crianças, mulheres grávidas e uma pessoa doente que precisava de maiores cuidados. Na quinta-feira a tarde chegou uma equipe da prefeitura de Marques de Souza, município próximo severamente atingido pelas águas e que nos trouxe um pouco de água, feijão e arroz, ou seja, um pouco do muito que perderam. Já na sexta-feira a coisa começou a tomar outro rumo com a chegada da Polícia Rodoviária Federal que passou a tomar a dianteira para que todos pudessem sair por uma estrada de chão perigosa, mas sendo a alternativa para o momento”.

         “Esta é uma situação muito triste de passar e de ver as imagens divulgadas pela imprensa. Uma situação é estar em um local em que a água se aproxima e você tem para onde se abrigar, outra coisa é você estar em um local que não tem para onde ir, principalmente com deslizamentos dos morros próximos. Para baixo tínhamos o rio e acima tínhamos o morro”.

Viver em mútua convivência  

         Para Mauri, o fato de viver em espécie de comunidade onde cada um fazia a sua parte para que todos pudessem viver da melhor forma possível foi muito salutar, mesmo tendo algumas pessoas que sentem a dificuldade da divisão ou de um olhar mais atento ao próximo. “Mais de 90% das pessoas, orientadas por uma coordenação, estavam em sintonia com as necessidades e o que era preciso fazem naquele momento, pois tínhamos que sobreviver e não sabíamos quanto tempo ficaríamos no local. Imaginamos ficar de oito a dez dias. Tudo era racionado para que todos pudessem se alimentar”.

Família

         Mauri destacou que o último contato com a família foi na terça-feira pela manhã, depois disso ficou incomunicável e todos passaram a ficar em desespero. “Nem minha família, amigos e empresa passaram a ter contato comigo. Voltei a ter contato somente na sexta-feira após as dez horas da manhã, momento em que consegui retornar até Lajeado. Um momento emocionante, em que se vive novamente, pois era um local em que a cada momento você poderia morrer por cauda dos deslizamentos. Um momento de espera. Formamos um grupo e nos comunicamos, pois todos estão bem e em casa”, finaliza.

 

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