Você já deve ter ouvido falar da série Round 6. A mais nova exibição da gigante de streaming Netflix, que ainda está dando o que falar em função de seu conteúdo que aborda violência extrema e apresenta temas delicados, como assassinato, suicídio e tráfico de órgãos.
Em pouco mais de um mês, a produção sul-coreana foi assistida por mais de 142 milhões de contas e se tornou a série mais vista da empresa, um verdadeiro fenômeno mundial que conquistou e surpreendeu quem acompanhou a trama intrigante e ao mesmo tempo violenta.
Em outubro, a Netflix divulgou um relatório financeiro que apontou um crescimento expressivo em relação ao número de novos assinantes que passou de 1 milhão e meio de usuários para 4 milhões de contas a mais no último trimestre.
Round 6
A série, também chamada de “Squid Game”, do diretor e criador Hwang Dong – Hyuk apresenta um grupo de 456 pessoas endividadas que são convidadas a participar de uma misteriosa competição de sobrevivência, envolvendo jogos tradicionais infantis coreanos, que colocam em risco a vida de pessoas, na busca por um prêmio no valor de 45,6 ₩ bilhões de Wons (moeda da Coreia do Sul), que equivale a aproximadamente 40 milhões de dólares, mas apenas um jogador consegue levar a bolada.
A partir deste cenário, as cenas se misturam entre estratégias usadas pelos participantes e revelam o que os jogadores são capazes de fazer pela conquista do poder e dinheiro.
Sucesso e preocupação
Após o sucesso da série, entre o público de diferentes idades, vieram as críticas e polêmicas por causa do enredo e ainda uma possível segunda temporada. Também ocorreu a preocupação por parte dos pais, de crianças e adolescentes consumirem o conteúdo da produção, por conta da violência mostrada. Mesmo tendo classificação indicativa de 16 anos, o conteúdo não é indicado pelo próprio criador que escreveu:
“Esta obra não é para elas (as crianças). Espero que os pais e os professores ao redor do mundo sejam prudentes para que elas não sejam expostas a este tipo de conteúdo”, afirmou o criador da série.
Na avaliação da psicóloga clínica e instrutora de Eneagrama Rubia Calgarotto de Erechim, esta tem sido a principal inquietação dos pais, educadores e profissionais de saúde mental, o acesso das crianças e adolescentes à série.
A profissional salienta que crianças passam por etapas de desenvolvimento e em cada uma, aquisições importantes acontecem. Uma delas é o discernimento entre fantasia, imaginação e realidade. “Ainda há a internalização de limites, que é fundamental para a constituição do superego. Quando esses aspectos não estão bem consolidados no desenvolvimento, o fato de serem expostos a um nível de violência e perversão contra o ser humano, como presenciamos na série, pode ser muito arriscado e prejudicial para a solidificação da personalidade. Realmente, aconselho que crianças e adolescentes menores de 16 anos não acessem o conteúdo”, alerta.
Influência das produções cinematográficas
Analisando a produção com mais profundidade, levando em consideração o impacto que produções cinematográficas podem causar na sociedade, a especialista frisa que aliar inocência infantil e morte, foi uma proposta ousada. “As produções refletem tudo o que o ser humano pode conceber em seus pensamentos. Muitas delas, são espelhos dos movimentos da humanidade. Round 6 impacta! Quanto vale uma vida? A série de streaming por um lado, a meu ver, aborda uma sociedade gananciosa onde as pessoas centralizam o poder no dinheiro: o poder de decidir quem vive ou morre, de realizar sonhos, de curar feridas ou até mesmo para comprar a diversão, como mostra na série, os ‘VIPS’ que estavam entediados e resolveram jogar com a vida de maneira perversa, entretanto só foi possível porque do outro lado pessoas se permitiram a fazê-lo (por diferentes motivações)”, explica.
Comportamento humano
Dentro de Round 6, é possível fazer diferentes reflexões, principalmente em relação ao comportamento do ser humano. Uma delas, é sobre o poder de decisões e escolhas que todos devem passar durante as fases da vida. “No jogo, os personagens são levados ao limite ético e de sobrevivência, a série mostrou desde o começo, a possibilidade de escolha que os jogadores tinham. Essa é uma dolorosa crítica ao comportamento humano. Escolher, sempre significa abrir mão de algo (no jogo, abrir mão da premiação). E quando você escolhe, automaticamente assume a responsabilidade de assumir as consequências, sejam boas ou ruins, vindas delas”, analisa.
Reflexões
A psicóloga ainda acrescenta, que se tratando de reflexões de nível abstrato, somente “adultos” têm maturidade cognitiva para fazer. “Assim, também se trata de uma escolha de protegerem as crianças e adolescentes de situações e conteúdos onde não há necessidade de serem vivenciados ou acessados por eles”.
O alerta, ainda se estende para as produções cinematográficas no geral, que podem se tornar um gatilho para potencializar os sentimentos e o comportamento da sociedade. “Seja a agressividade, violência, medos, compaixão, empatia ou amor. Honestamente, sempre defenderei a ideia de que precisamos construir um mundo melhor, a partir da evolução do ser humano. Por isso convido, vamos despertar o melhor que reside em nós?”, reflete a psicóloga e instrutora de Eneagrama Rubia Calgarotto sobre a série Round 6.