Antes de morrer, na semana passada, dia 4 de fevereiro, o militar aposentado, Isidro dos Santos Lima, de 87 anos, pediu pra filha que queria sair no jornal para fazer o registro de sua história de vida, que é repleta de muitas vivências, como quando sofreu perseguição política e foi preso na revolução de 1964.
Seu Isidro era uma pessoa de gestos simples, exemplo de superação, força e alegria, que vivia na companhia de familiares e amigos. Era natural de Tupanciretã (na época localidade de Vila Joia), casou-se em Santa Maria, com Maria José, e lá residiu por 10 anos e teve nove filhos. Era viúvo e residia em Erechim há mais de 40 anos.
Rotina
O aposentado tinha muitos amigos e mantinha um relacionamento bom com as pessoas. Sempre gostou de Erechim e achava que ia ficar até o fim. Ele tomava alguns remédios, fazia acompanhamento médico e vivia com tranquilidade. Quando era questionado sobre a sua “receita” de vida dizia que era não beber em excesso, trabalhar bastante e cuidar da saúde, o que envolvia caminhadas – o que fez até os 85 anos, boa alimentação e um sono bom. Além, é claro, de se reunir com os amigos e visitar os familiares. Depois dos 85 anos ele adoeceu, teve câncer.
Tradicionalismo
Seu Isidro cultivava a cultura gaúcha, o tradicionalismo, e o amor à pátria. Gostava de ficar pilchado, lembrava que havia sido ginete em Santa Maria, que entendia e gostava de cavalos, e de acompanhar o desfile de Sete de Setembro, sempre pilchado, demonstrando o orgulho pela pátria.
Perseguição
Seu Isidro sempre lembrava da revolução de 1964, época que foi perseguido em função de motivos políticos. Era o período da ditadura militar, havia muito controle de tudo, censura, e ele defendia o antigo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) de Leonel Brizola, e como era sargento da Brigada Militar, ficava em evidência. De outro lado, haviam os membros do partido denominado Arena.
Prisão
Ele lembrava que havia sido preso durante uma madrugada, quando estava em casa, segundo Isidro, tudo em função da rivalidade política. O sargento da Brigada Militar ficou 15 dias em uma espécie de gabinete com escolta em Santa Maria; depois foi encaminhado para Passo Fundo, Marcelino Ramos e na sequência a Viadutos.
“Quanto mais longe ele ficasse, melhor era para eles. Isso porque o pai era um auxiliar do comandante e, isso intrigava muito a eles", lembra a filha Luza, que acrescenta, como o pai falava e defendia Brizola, eles chegaram a pensar que o militar estaria organizando um esquadrão. "Só porque defendia um partido político. Não foi uma tortura física, mas psicológica", comentou.
Segundo a filha, ele foi perseguido durante a sua vida toda e não ganhava promoções dos cargos que exercia, o que só ocorreu depois de sua aposentadoria. O militar aposentado sempre dizia que nunca havia feito nada contra a entidade, que trabalhava. "Eles que vieram contra mim na época”, dizia.
“Os homens vestidos de preto bateram na janela e falaram que minha cunhada estava passando mal. Na verdade, foi aí que me levaram para a prisão", recordava. Seu Isidro foi enterrado pilchado, levou o seu chapéu e as botas, que tanto gostava. E como última homenagem, a família deseja que ele fique em paz com Deus, e que tenha encontrado a sua esposa de quem sentia tanta falta. A família dedica este trecho do Pai Nosso Gaudério:
“Pra fim de conversa, vou te dizer, meu Deus, mas somente pra ti: que tua vontade leve a minha de cabresto pra todo o sempre e até a querência do céu, amém."