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Tempo ou contra o tempo

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Jackson Arpini
Por Jsckson Arpini - Cirurgião Dentista
Foto Divulgação

A cada badalo do ponteiro do relógio observamos o andar dos segundos, minutos e horas e, assim, sucessivamente, o passar dos dias, meses e anos.

Pressupõe com o passar do tempo, consequentemente do caminhar dos ponteiros, que sofremos algumas avarias físicas. Aparecem naturalmente vergas no rosto, os cabelos tornam-se esbranquiçados ou escassos, o tônus muscular ganha flacidez e os olhos não enxergam mais as finas hastes que marcam o tempo sem os aparatos de grau - um prenúncio que os tempos não são mais os mesmos.

Podemos deduzir nessa trajetória que passamos também por lapidações. Ficamos mais maduros, pelos calejados anos de vivência. Mais experientes, pelas lições da vida. Ascendemos intelectualmente, pela absorção de saberes. Evoluímos como cidadãos, pelo convívio em sociedade. Alteramos nossos sentimentos pelos vínculos com próximos. Crescemos no trabalho, pela troca de experiências. Encontramos espiritualidade, fruto das nossas reflexões. Sonhamos quando fechamos os olhos e, com isso, peregrinamos no tempo - no andar ininterrupto dos ponteiros.

Podemos igualmente perceber que crescemos em estatura e cerne, graças ao tic-tac dos ponteiros. Será?

Contudo, ao vivenciar o tempo (evolução), verificamos, por certas atitudes, que nos encontramos, muitas vezes, vagueando contra o tempo (involução).

Nesta marcha, ora retrocedemos e, até mesmo, caminhamos no sentido anti-horário dos afinados ponteiros.

Em vez de ascender, decrescemos. Em vez de aspirar, voltamos aos primórdios. Um olhando para o rabo do outro e, por ironia, não olhando para o próprio (aqui faço alusão ao artigo do Dr. Alcides Stumpf: “Covid-19 e os Macacos”).

Em tempos reais de pandemia, e utilizando o cenário aflito como exemplo, vimos que todos estão com o dedo em riste. Todos detentores da verdade para uma nova cena que a própria humanidade ainda não tem a 'verdade real'.

Todos sabem. Todos opinam. Todos arriscam a forma da curva que pode ser, quem sabe, talvez, aguda, achatada, quiçá, plana.

Andamos contra o tempo em vários capítulos da vida. Perdemos âmago. Perdemos polidez. Perdemos ética, respeito e sociabilidade.

Ficamos hostis e desfazemos amizades. No andar contrário, politizamos tudo e tudo passa a ter lados e cores, bandeiras e discursos.

Nas redes sociais, outro exemplo, verificamos que descemos ladeira abaixo e adentramos no tempo das cavernas, mas com o wi-fi ligado. Ela veio (redes sociais) como resultado de um avanço tecnológico produzido pelo tempo e pelo polimento do saber. Emergiu como uma conquista para, em tese, aproximar, interagir e facilitar e não para virar uma tela de pichações de dizeres pejorativos, agressivos e envoltos de maldade. E temos ainda nesse contexto as verdades absolutas das fake news, plantadas aqui, ali e acolá, que trabalham na construção das narrativas de grupos ou partidos políticos.

E aqui resgato o escritor e filósofo italiano Humberto Eco, que versou: “as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”, numa clarividente declaração que andamos, às vezes, ou muitas vezes, contra o tempo.

Em suma, estamos diante de duas temporadas. A do tempo, que anda porque os refinados ponteiros não esmorecem e a do contra o tempo, fruto dos nossos atos, que estagnam e retrocedem.

Precisamos, em tempos de quarentena, resguardar um tempo (parar os ponteiros) para regular as engrenagens do nostálgico relógio, para que o balanço do pêndulo consiga também sincronizar nossos ímpetos. Necessitamos ajustar as peças para que o ressoar do tradicional “cu-co” sinalize que estamos sintonizados com o tempo, abominando o contra tempo.

O movimento do pêndulo para frente e para trás do tradicional relógio do Século XVII tinha um objetivo - mover a sensível engrenagem.

Será que, hoje, perdemos o sentido do tempo? Das badaladas?

Será que não escutamos o “cu-co”, que avisa que o tempo anda – e rápido?

Cabe repensar, antes que seja tarde.

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