O isolamento social imposto em função da pandemia do novo coronavírus (covid-19) trouxe uma série de limitações e impactos na economia e no mercado de trabalho. A restrição afetou diretamente o poder aquisitivo das famílias e, assim, a sua sobrevivência. Essa situação está levando muitas pessoas, que não conseguem trabalhar, buscar doações de alimentos para conseguir se alimentar e dar o que comer aos filhos. E, Erechim, não está fora dessa realidade. A seguir, o relato de uma mãe, desesperada com a situação que está vivendo, falta de comida, trabalho, e dignidade para viver.
“Está faltando comida em casa. Sabe quanto é triste ter um filho e saber que a gente fazia o possível e impossível pra não deixar faltar nada, e chega um dia que o filho pede uma bolacha e a gente não tem pra dar”, relata emocionada, Joice Maria da Silva, 38 anos, moradora do Bairro Progresso, que está desempregada.
“Meu esposo foi no CRAS e deram uma data para ele pegar o sacolão e uma data pra ele fazer o Cadastro Único, que está marcado para o dia 9 de junho. No dia 20, era pra ir buscar o sacolão as 14 horas. Ele deixou de fazer os biscates pra ir tirar o sacolão, porque só podia ser ele, está no nome dele. As gurias simplesmente pegaram o papelzinho da data pra retirar o sacolão, rasgaram, e deram outro papel pra ele ir de novo fazer o cadastro para pegar o sacolão”, conta emocionada.
São em três pessoas na família, ela, o esposo e a filha. “O meu esposo não pode trabalhar de carteira assinada, estava encostado, mas não está mais, faz três anos que está na Justiça. Ele tem problema, uma prótese na coluna, pinos no pé, aí faz o que pode. O meu esposo sempre trabalhou de pedreiro, e faz hoje o que aparece”, disse.
Ela está à procura de serviço. Na semana passada foi entregar o currículo na área industrial, mas é difícil conseguir emprego. “Eu fui pra rua em novembro do ano passado, lá onde morava em Lagoa Vermelha, e aí viemos para cá. Até então, eu não consegui um serviço fixo, o que aparece eu faço. Se aparece faxina eu faço, só que a gente paga aluguel e não é fácil, não é fácil”, diz quase chorando.
Sacolão
“A gente estava contando com o sacolão, mas não recebemos, porque não tinha nada pra doar. Estamos os dois desempregados e está faltando comida em casa”, afirma. E, acrescenta, “se eu tivesse um serviço, se meu marido tivesse um serviço, eu não ia pedir, fui atrás e tenho fé que vou conseguir um trabalho pra mim, para poder voltar a dar o que minha filha tinha, não deixar faltar as coisas pra ela”.
Critérios
Para Joice, tem muita gente que vai buscar o sacolão e não precisa. “As pessoas que trabalham com doação deveriam verificar quem realmente tem necessidade de receber”, afirma.
Voluntária
A aposentada, Marize de Fátima da Rosa, moradora do Bairro São José, que já trabalhou na prefeitura de Erechim, e hoje se dedica a trabalhos voluntários no Bairro Progresso, a ajudar as pessoas carentes, e acompanha a realidade das comunidades, disse que está faltando comida para as famílias nos bairros.
“As pessoas precisam ficar esperando dias pra receber o sacolão, isso é uma vergonha, uma humilhação. As pessoas precisam de comida pra hoje, ontem, e não pra daqui um mês”, afirma.
“Elas mandam pessoas que não entendem como lidar com o povo, acham que as pessoas têm que se humilhar pra eles. Tem mais gente passando por essa situação. Estão fazendo as pessoas se humilharem. Tratam as pessoas como coitados, que não merecem ser atendidos com dignidade, amor e carinho”, desabafa.
E, acrescenta, “pra quem não tem nada, o sacolão ajuda, as pessoas precisam ser atendidas com urgência pelo CRAS, não pode faltar comida no CRAS, a pessoa ter que ficar esperando, se escrevendo e dependendo de tanta burocracia”.
Secretaria Municipal de Assistência Social
A secretária de Assistência Social de Erechim, Linir Antônia Chiarello Zanella, que o fato ocorreu e por uma determinada situação não foi entregue o sacolão. “Não me cabe revelar a situação, isso é profissional, é um trabalho das minhas assistentes, do meu pessoal, tenho que respeitar o trabalho técnico, tem que ter organização, porque é um lugar público”, disse.
E, acrescenta, “mas agora no dia 27 (amanhã), poderão fazer o cadastro que terão a cesta básica”.