Personagens e plágios são elementos comuns na literatura, e também em outras artes. Tudo se cria, compila e recria, dizem alguns céticos de plantão. A originalidade, ao que consta, para mim - um cristão temporariamente convicto -, está no Gênesis. O restante, as derivações e variações, giram sempre em torno do mesmo tema, a criação e seus desdobramentos.
E para dar continuidade às narrativas fundadoras e originais do Livro Sagrado, sobre o qual se sustentam os séculos, são necessários sujeitos de igual dimensionamento e compleição.
Por outra os plagiadores literários são golpistas que burlam as leis e são levianos ante leitores. Por falta de originalidade são fadados ao insucesso e geralmente resistem por pouco tempo.
Na bibliografia nacional temos figuras marcantes e raros plagiadores. Diferente tem se mostrado a literatura best-seller com seus grandes nomes: J. K. Rowling, Dan Brown, José Saramago, Paulo Coelho, entre outras celebridades foram flagrados em cópias indisfarçáveis. O que certamente é lastimável.
A literatura nacional, por sua vez, é pródiga em personagens que sustentam narrativas igualmente atraentes, criativas e generosas.
Brás Cubas, o célebre defunto narrador, e Capitu, a personagem feminina mais famosa da literatura brasileira, são clássicos de Machado de Assis; Capitão Rodrigo o herói farrapo de Érico Veríssimo, destacado por sua valentia; de Monteiro Lobato temos Emília, boneca de pano que dá vida à maior personagem infantojuvenil. Sem contar Macunaíma, de Mário de Andrade, o herói sem nenhum caráter.
Na crônica, gênero literário especialmente cultivado e desenvolvido no Brasil, temos exemplos igualmente marcantes.
Tia Zulmira e primo Altamirando, tipos satíricos criados por Stanislaw Ponte Preta; Palhares, o maior cafajeste, aquele que beijava a cunhada no corredor, criação de Nelson Rodrigues; o analista de Bagé, de Luis Fernando Veríssimo, retrata o gauchão freudiano.
Assim, semeado em tempos ruins, mas em terras boas, nasce o Sapateiro de Bruxelas, figura humana fictícia criada por este que vos escreve, com papel social e padrões bem definidos. Comportado, sem maiores pretensões senão provocar ou divertir os senhores leitores.
Personagem simples de raízes igualmente simples, se nutre da terra e alimenta a mesma cultura.
Esta é a função do cronista: tecer comentários às vezes críticos ou polêmicos, com estilo muito próprio e local, ao observar o cotidiano, as aspirações e incertezas de um povo, de uma vida. E se faltar matéria prima verídica, não faltarão os ditos maldosos, mexericos, e aquilo que comentam em segredo sobre os outros. De uma cidade que gera histórias interessantes a cada dia, a cada minuto.
* Médico