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O Sapateiro de Bruxelas e o destino

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Alcides Mandelli Stumpf
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Rodrigo Finardi

O Sapateiro de Bruxelas se diz um homem probo e comprometido com a razão e o trabalho. Se dedica aos conhecimentos e cumpre suas obrigações, excetuando algumas transgressões de trânsito e pequenos desencontros com a Receita Federal. Não se considera um ser primitivo e não acredita em sinais, presságios, e muito menos em coincidências fortuitas vindas de outros mundos ou mesmo de circunstâncias terrenas. Excetuando situações pontuais, não teme fatos ou fados iníquos ou assombrosos.

Por isso o Artesão se diz avesso a práticas baseadas em crenças de ser possível influenciar a natureza mediante maquinações fantásticas ou fórmulas ocultas sobrenaturais. Azar é uma palavra vazia de sentido, nada pode existir sem causa – aprendeu desde cedo com as leituras de Voltaire.

O pouco que sabe – costuma dizer -, vem de conhecimentos adquiridos pelas vias de estudos e reflexões pessoais, aliados às experiências e ao bom convívio com amigos e irmãos – inclusive aqueles que frequentam o nosso Café. Por isso optou agora na maturidade por uma vida mais metódica, racional e disciplinada, pautada na coerência interna e na sistematicidade.

Resumindo: resolveu andar na linha, sem medo de ser atropelado pelo trem da história. Por outra, eventuais digressões ou escapadelas não merecem menção ou tampouco serem reveladas – me afirmou o bruxelense com desfaçada integridade.

Porém, mesmo avesso a magias e superstições, o Sapateiro carrega sempre consigo - por garantia - uma medalhinha de Santo Expedito, um chaveiro de pé de coelho e uma folha louro na carteira, amuletos, pequenas reservas individuais para proteger de feitiços ou casuais emanações sobrenaturais. Também costuma bater três vezes na madeira para afastar maus agouros ou mal-estares.

E, ao mexer o açúcar no fundo da xicrinha de café, falou com sapiência e vagar: Nada acontece por acaso entre o nascimento e a morte. Mas nunca subestime as ironias e as armadilhas do destino. O destino, este sim, é um duende zombeteiro que gosta de brincar com a vida das pessoas. Por fim, como estávamos a sós, confessou: Eu não acredito em duendes. No entanto, sei de fonte segura, que eles mentem muito, e são muito falsos e fingidos. Desconfie sempre do destino e nunca acredite em duendes, meu bom amigo.

Essa conversa um tanto confusa e atravessada, em parte sintetizava sua exitosa sorte e destino vencedor. Por fim arrematou: “Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay”.

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