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Geral

O Espelho do Sapateiro de Bruxelas

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Alcides Mandelli Stumpf.jpg
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Rodrigo Finardi

Dia desses o Sapateiro de Bruxelas chegou mais cedo ao Café. Contou que a pouco passara por maus momentos. Após acordar, como de hábito, acorreu aos asseios usuais. E aí, no momento íntimo matinal, deu-se o terror, a imensa surpresa.

Ao olhar o espelho deparou-se com horrenda figura, vulto disforme, esparsos cabelos, boca espumante e barba por fazer. Algo deplorável, assustador, impertinente, que inarredável insistia em permanecer a sua frente. Pregas profundas marcavam a face e o espírito da imagem infame; marcas de preocupações mundanas e finitas que juntas a sua baba branca e viscosa desciam pelo ralo levando junto suas esperanças.

Sim, aquela coisa incrível, aquele ogro verde, monstro volumoso, era ele próprio perante o inexorável amanhecer. Seu reflexo, enquadrado em vidro e prata, mostrava sem pudor o trágico espectro da morte em vida, alma combalida em compleição adiposa. Segundo sussurradas palavras, não fosse o movimento cadenciado do braço lento, que ia e vinha no mesmo lugar diante da boca murcha, não havia sinais de vida no horrendo cenário.

O choque quase letal, instantâneo e pungente, exigia a pronta e necessária reação física e moral. A gravidade do momento determinava a inadiável recomposição.

Contou que ainda transtornado foi ao banho remover as teias, poeiras e mofos do corpo já a beira da decomposição. A água tépida escorreu sobre a pele encarquilhada e ele limpou-se por fora. Por dentro continuava o mesmo, permanecia o medo, o azedo pavor da ruína que a pouco presenciara. Sim, não lhe restava nada mais que reagir.

Me disse - agora em tom mais firme - que jamais iria capitular. Afinal, o mundo o esperava, a vida o aguardava, invariável, inconteste, pontual e produtiva. Não seria agora, pela hedionda visão matutina, que desistiria do mundo ou da vida para sempre.

E recomposto, um tanto altivo, resolveu seguir em frente e encarar a faina diária fatigante: perfumou-se, caprichou no gel e saiu para a cotidiana rotina. Cabelos alinhados, pele lisa e escanhoada, hálito mentolado e axilas florais, assim se foi ele ao encontro dos amigos e jornais do dia, dia que estava só começando. O mundo o aguardava na mesa do Café.

E até aquele momento o mundo, de certa forma, se resumia a minha pessoa, que o escutava com pesar, e com ele sofria calado, decifrando seus pensamentos.

Mas logo os parceiros chegaram e contentes se aninharam ao nosso redor. E de pronto, com ânimos renovados, o oráculo exclamou: Carpe diem! Carpe diem! Vivam intensamente esse dia! Subitamente a alegria iluminou nossos semblantes e um novo e lindo dia iniciou para nós.

Dos terrores de Poe às odes de Horácio, tudo acontece em segundos na vida do Sapateiro de Bruxelas, mestre na arte de passar aos outros aquilo que as vezes não consegue praticar. E para arrematar, armou um sorriso um tanto hipócrita e me falou: Não leve o espelho tão a sério. A beleza verdadeira está dentro de nós.

 

Alcides Mandelli Stumpf

Médico

 

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