Com R$ 9 milhões já empenhados, execução da ponte entre os municípios de Campinas do Sul e Ronda Alta, junto à Barragem do Rio Passo Fundo, deve aproximar regiões e promete gerar novas oportunidades a um universo de quase 300 mil pessoas. Em reportagem especial, Grupo Bom Dia, a partir de pesquisas e entrevistas, explica a importância da obra, revela prazos e traz curiosidades que envolvem a construção, aguardada há quase 50 anos.
R$ 5 mil por mês. Este é o valor que o empresário Roque Pes, da Comercial Agropecuária Dourado/Nutrição Animal gasta, em média, para custear a travessia de seus caminhões sobre a balsa que corta o Rio Passo Fundo, no Norte do RS, a fim de levar seus produtos de Erechim para a região da Produção (e vice-versa); isso, sem considerar, o péssimo estado de conservação de cerca de 24 km das rodovias RS 234 e RS 221 que conduzem ao local, o que acarreta despesas extras com manutenção, combustível e pneus.
Pegue os números de Roque e, em diferentes proporções, multiplique o quadro por dezenas, centenas de empreendedores locais, que enfrentam o mesmo problema diariamente há décadas, muitos, desde meados dos anos 1970.
Agora, adicione à essa conta um fator determinante: o atraso (considerando tempo e dinheiro) que a ausência de uma ponte ligando o Médio Alto Uruguai, Norte e Noroeste do Rio Grande do Sul traz ao conjunto da economia regional, prejudicando de forma direta 34 municípios, num universo de quase 300 mil pessoas, sem registrar que mais de 100 municípios são atingidos direta e, ou, indiretamente, num raio superior a 1 milhão de habitantes.
De forma sucinta, é o encaminhamento da solução deste problema que trata o empenho 2019NE800307, de 26 de dezembro de 2019, que destina R$ 9 milhões, indicados pelo deputado Darcísio Perondi (MDB), para a implantação de uma ponte de concreto armado, com extensão aproximada de 250 metros e largura de 9 metros (números que podem sofrer alteração, conforme projeto final), sobre o Rio Passo Fundo (re)ligando Campinas do Sul, no Alto Uruguai, a Ronda Alta, na região da Produção.
Múltiplos benefícios
Conforme um dos principais defensores da obra, o ex-prefeito de Campinas do Sul e dirigente da CDL daquele município, Leonir Antônio Bortulini, a ponte – que poderá se chamar ‘Novo Passo da Entrada’ (em alusão à antiga ponte, hoje submersa) – reaproxima regiões, devolvendo o direito de que pessoas e mercadorias transitem sem a dependência da balsa (e seus custos), oportunizando, por exemplo, a produtores de frangos e suínos, localizados do lado Leste (Alto Uruguai), transportar os animais para a industrialização nos municípios de Sarandi (suínos) e Trindade do Sul (aves), contribuindo para o aumento da produção de aves – que é de 4 milhões/ano, gerando incremento de riqueza e oportunidade de trabalho a uma parcela ainda desassistida (atualmente, os municípios com mais elevado percentual de pessoas que recebem menos de ½ salário mínimo são os que ficaram encravados e sem saídas).
Além disso, Bortulini pontua que as terras no entorno da Barragem produzem em média, por hectare, de 90 a 100 casas de soja; 180 a 200 sacas de milho; e algo em torno de 90 sacas de trigo, num valor estimado de R$ 300 milhões/ano. Ele também lembra que, em Erechim, a Olfar (esmagadora de soja) produz matéria prima (proteína) destinada para a produção de ração (fabricas no lado Oeste), que após retornam para os criadores do lado Leste a fim de alimentar os animais (suínos e aves).
Rapidez na travessia de animais vivos; turismo (municípios do RS com balneários receberão visitantes de outras regiões); e pacientes que precisam de tratamento de saúde – com destaque aos Hospitais de Erechim, Santa Terezinha e Caridade – também devem ser beneficiados.
Obra e custo
Para Leonir Bortulini – que destaca o papel de Dimas José Grossi, presidente da CDL de Campinas do Sul, e do deputado Perondi na conquista dos recursos – o custo da obra para a União (R$ 9 milhões), considerado seu retorno no curto e médio prazo é baixíssimo. “Temos clareza de que o PIB regional crescerá consideravelmente, criando empregos e riqueza para os povos. Se conseguirmos, por exemplo, diminuir em 10% a pobreza, em dez anos a União economizará o valor investido, e será pra sempre’, analisa para em seguida completar: ‘Não se acaba a pobreza com assistencialismo, mas com desenvolvimento e investimentos. É disto que estamos tratando’.
Novo projeto e investimento total
A ponte inicialmente estimada em R$ 16 milhões deve ter, a partir do reposicionamento do projeto – com a redução na extensão e largura –, custo total de R$ 11 a 13 milhões, sendo que o ‘excedente’ (aquilo que ultrapassar os R$ 9 milhões federais) deverá ser alocado pelos municípios de Campinas do Sul e Ronda Alta (que já garantiram R$ 1 milhão cada), além de eventual ‘reforço’ da Capital Federal.
Próximos passos e execução
Enquanto em Brasília o órgão recebedor dos R$ 9 milhões indicados por Perondi é o ministério do Desenvolvimento Regional, num arranjo local – com a participação de representantes dos poderes públicos de Campinas do Sul e Ronda Alta, CDL de Campinas, deputado Gilberto Capoani, secretário de Transportes, Juvir Costella, e direção do Daer – decidiu-se que a obra, via convênio autorizativo com o Estado, será executada pelo município de Campinas do Sul. Seriam duas etapas: na primeira, trata-se da construção da ponte em si; para, num segundo momento, se providenciar os aterros.
A estimativa, segundo o prefeito de Campinas do Sul, Neri Montepó (Progressistas) é de que, após a celebração do convênio entre o Estado e as prefeituras de Campinas do Sul e Ronda Alta, a licitação para contratação do projeto final seja lançada em dois ou três meses. A partir daí, e com as devidas licenças ambientais, deve ser lançado (por volta de julho) o edital para contratação da empresa responsável pela obra. Conforme Montepó, a expectativa é de que os trabalhos iniciem até o fim de 2020, e devam ser concluídos em dois anos.
Asfalto, a nova luta
A construção da ponte, contudo, traz consigo uma nova demanda, alerta Leonir Bortulini. Agora, a luta é para o asfaltamento dos cerca de 24 km da RS 234, do lado Oeste, até Campinas do Sul, pela RS-221.
Desta vez, a estratégia será, primeiro, mobilizar os usuários das rodovias – e da balsa. ‘Temos que nos convencer que é chegado o momento de olhar além do umbigo. Depois, se Estado e União vierem ajudar, é outro papo. Mas, digo: se queremos, e nós queremos; podemos muito’, completa o homem que, depois de anos de esforço, viu o ‘sonho’ da ponte começar a se concretizar.
O que dizem algumas lideranças
O presidente do conselho da Accie, Claudionor Mores, avalia que a obra deverá favorecer a sonhada 'integração horizontal' entre as regiões do Médio Alto Uruguai, Norte e Noroeste, otimizando rotas logísticas, favorecendo a integração comercial (agronegócio e outros), além de reduzir custos. O dirigente, contudo, observa que é preciso que a região Norte busque aproximação também com o Nordeste; do contrário, pontua Mores, existe a possibilidade de que se criem 'desvios de rotas', fazendo com que Erechim e os municípios vizinhos percam novamente.
Para o presidente da Agência de Desenvolvimento do Alto Uruguai, Eduardo Angonesi Predebon, a Ponte do Rio Passo Fundo terá um papel fundamental no desenvolvimento regional, propiciando integração, inclusão e mobilidade aos municípios que integram os Coredes do Rio da Várzea e do Médio Alto Uruguai, adicionando mais de 300 mil pessoas ao ecossistema econômico local, o que, segundo Predebon, deve trazer ‘mais resiliência e dinamismo aos arranjos produtivos locais’.
Deputado federal, Darcísio Perondi:
‘Depois de muitos anos de luta, no fim de 2019, consegui destinar um valor vultuoso para a realização da tão sonhada ponte do Rio Passo Fundo, o que vai reestabelecer injustiça cometida há quase meio século’.
Municípios diretamente envolvidos
Do lado Oeste:
- Ronda Alta,
- Rondinha,
- Sarandi,
- Barra Funda,
- Novo Barreiro,
- Palmeira das Missões,
- Engenho Velho,
- São José das Missões,
- São Pedro das Missões,
- Liberato Salzano,
- Novo Xingu,
- Sagrada Família,
- Lajeado Bugre,
- Constantina,
- Condor,
- Três Palmeiras,
- Trindade do Sul.
Do lado Leste:
– Campinas do Sul,
- Jacutinga,
- Ponte Preta,
- Cruzaltense,
- Paulo Bento,
- Quatro Irmãos,
- Barão de Cotegipe,
- Erechim,
- Três Arroios,
- Severiano de Almeida,
- Aratiba,
- Gaurama,
- Viadutos,
- Marcelino Ramos,
- Machadinho,
- Barra do Rio Azul,
- Mariano Moro.
Saiba mais
# Em janeiro de 1966 foi iniciada a construção da Barragem no Rio Passo Fundo. As comportas foram fechadas em março de 1971, sendo a Barragem, executada pela Eletrosul, inaugurada em setembro de 1973. A área alagada foi de 442km2 – o que incluiu uma antiga ponte de madeira que ligava Campinas do Sul e Ronda Alta.
# No mesmo ano de 1973, os municípios atingidos pela Barragem resolveram construir uma estrada alternativa (que mais tarde se tornaria a RS 221). Como diria Drummond, no entanto, no meio do caminho tinha uma balsa; tinha uma balsa (particular) no meio do caminho – que passou a cobrar por uma simples travessia, em valores atuais, R$ 20 de carros de passeio, chegando até a R$ 112 de caminhões, à noite.
# Embora a maior parte alagada da Barragem corresponda ao município de Campinas do Sul, o retorno de ICMS pela produção da Usina Hidrelétrica Passo Fundo, localizada em Entre Rio do Sul, fica com Entre Rios.
# A concessão da Usina, que tem reservatório de 151 km2, é válida até 2028. Possui duas unidades geradoras com turbinas tipo Francis, com 113 MW cada, totalizando 226 MW de capacidade instalada. Sua garantia física para comercialização é de 113,1 MW médios, sendo desde 2017 a Usina passou a ser telecontrolada a partir do Centro de Operação da Geração (COG), localizado na sede da ENGIE, em Florianópolis (SC).
# Ainda durante o governo de Pedro Simon, no fim dos anos 1980, a Eletrosul teria, segundo Leonir Bortulini, reconhecido que caberia a ela ‘fazer a ponte’, reparando uma situação histórica. Contudo, alegando ‘dificuldades financeiras’, a promessa jamais saiu do papel.