Houve tempos que ano iniciava em março. Primeiro acontecia a virada, o Réveillon. Logo vinha o Ano Novo, invariavelmente próspero aos homens de boa vontade. As mulheres, por sua vez, naquela época, não eram portadoras de boa ou má vontade. Eram insípidas, neutras, inodoras e incolores – pelo menos ao público.
Na sequência imediata e lógica surgiam mansas, intensas e extensas, as férias de verão, que se estendiam preguiçosas até março. A vida corria solta e o mundo rodava macio e sem pressa. Os fatos e boatos andavam de boca em boca, balcão em balcão, janela em janela com a graça de uma fofoca, leve maledicência. Até porque andar de pressa era falta de educação - falavam os adultos de antanho.
Hoje tudo mudou e o adulto da vez sou eu - para não dizer o velho. As festas passam rapidamente e as preocupações e desesperos retornam impiedosas já na manhã seguinte, sem tréguas ou férias. Março fica longe, inatingível, marcianamente distante.
A próxima crise amanhece com a estrela Dalva que insiste em no céu despontar. Nem dá tempo de se despedir da última que ainda não passou. Lá vem novo escândalo, novo bate-boca nas redes, novas fake news, novas agressões explícitas e implícitas. Famílias, amizades sólidas e amores gelatinosos desmoronam numa troca de mensagens atravessada.
Os constantes solavancos não deixam mais o mundo rodar na devida e merecida mansidão. E pelo que consta, pelo jeitão das coisas, não há melhoras à vista. Assim, resta apertar bem o cinto e os olhos e me agarrar para não cair. Até porque se desta vez cair na imensidão, corro o risco de não mais voltar.