Em abril de 1978, eu, meus dois irmãos e minha mãe, viemos de Porto Alegre para morar em Erechim. Minha mãe com 24 anos e três filhos pequenos para criar, com 5, 6 e 7 anos, e recém separada.
Tinha todos os motivos para odiar o pai de seus filhos, afinal vivia para a família e de repente um mundo novo à sua frente. Mas o que era para ser um tormento, virou oportunidades.
E vou relatar nessa história de Natal, sua maneira de lidar com as coisas. Acho que era 1980, e falávamos pelos telefones da CRT, com o meu pai ás vezes.
E numa dessas vezes já era novembro, pouco tempo para o Natal. Ele disse para mim e meus irmãos que poderíamos ir na rodoviária que nossos presentes estavam a caminho.
A rodoviária era onde hoje é a Casa Para Todos, na esquina da Rua Alemanha com a Aratiba, e as ruas todas de paralelepípedos.
Um pouco antes, onde funciona hoje o Korova, na Rua Alemanha, tinha o setor de encomendas das empresas. E foi nesse local, que fizemos trilho, em busca dos presentes de Natal.
No primeiro dia, os três irmãos juntos, se mandaram par ao local, com os olhos brilhando, pois iríamos buscar os presentes que o Papai Noel deixou na cidade de nosso pai.
Quando chegamos, nos identificamos e pedimos de uma encomenda, no nome de fulano de tal. E recebemos a informação que não havia chegado nada. Fomos para casa, os três de cabeça baixa, e fomos recebidos pela nossa mãe que disse: “nessa época tem muitas encomendas, talvez atrasou”. Ficamos cheio de esperança novamente, ligamos para o pai, que disse ter mandado os presentes, mas que era para esperar uns dois dias para ir retirar.
Foram os dois dias mais longos para nós pequenos, esperando os presentes. Quarenta e oito horas depois, lá estávamos nós para receber a encomenda. Era um outro funcionário e nos informou que não tinha nada. Eu insisti: “olha de novo, meu pai disse que mandou”. O funcionário muito gentil, foi verificar, mas nada encontrou. Era mais uma decepção.
Retornamos para nossa casa, e a mãe disse que ligaria para o pai e iria resolver. Nos acalmou. Nunca nos disse, mas ligou para ele.
Durante uns 10 dias seguidos e já era perto da véspera de Natal, íamos até a rodoviária e aquele funcionário da primeira vez, sabia da verdade, os presentes não viriam, e sempre dizia algo para nos confortar e até picolé da Mlk Mone um dia comprou para nós. Eu lembro que peguei um de coco queimado. Sinto até hoje o gosto do coco. Era formidável, mas os presentes....nada.
Minha mãe, vendo nossa tristeza e decepção, resolveu ter uma atitude, das mais nobres, que vi na minha vida: “olha, falei com o pai de vocês e agora sim, os presentes vão vir e daqui dois dias vocês podem ir buscar”.
Falou com tanta convicção, que acreditamos prontamente e a felicidade e o brilho nos olhos retornaram nos três moleques.
Passados os dois dias, se mandamos para a rodoviária. E desta vez, foi o funcionário que já nos conhecia pelo nome, que nos deu picolé, que nos deu conforto, se dirigir até nós: “meninos, os presentes chegaram”.
Saímos correndo, como se tivéssemos encontrado o pote de ouro, no fim do arco íris. Era uma caixa grande, toda lacrada, com o nome do meu pai. Dentro dela seis pacotes, dois cada um, dos três filhos. Num deles tinha roupas e no outro, vários brinquedos.
Pegamos os pacotes, que estavam com o nome individualizado, e corremos para casa, contar para a mãe, que o pai tinha enviado os presentes e não tinha esquecido de nós.
Ela nos abraçou forte, éramos pequenos ainda, os três de uma única vez e víamos nos seus olhos, algumas lágrimas escorrerem: “que bom, meus filhos, que bom, ele não iria esquecer de vocês jamais”.
Pegamos os brinquedos e brincamos sem parar, até a noite de Natal, quando ganhamos outros presentes da minha mãe, parentes e do nosso querido padrasto.
Essa história foi um segredo por longos anos. Uma década depois ficamos sabendo a verdade. O pai nunca mandou os presentes. A mãe cansada de nos ver tristes e indo todos os dias na rodoviária, resolveu da sua maneira. Foi lá, conversou com o funcionário que nos dei picolé, deixou uma caixa com os presentes, que ela comprou, mas com o nome de nosso pai. Realmente um gesto nobre.
Poderia ter lidado diferente com a situação, ficar indignada com o pais de seus filhos. Mas não, pelo contrário. Crescemos sem qualquer tipo de rancor ou vingança por pare dela.
Essa é uma história de superação, mas principalmente de compaixão, sem falar de ninguém, construindo sua história com dignidade.