O Sapateiro de Bruxelas, personagem fictício que tem frequentado minhas colunas, detesta dias especiais, efemérides e folguedos em geral. E insistentemente afirma que gostaria muito de saber quem foi o cretino que inventou essas bobagens de datas comemorativas e demais anomalias temporais.
Quando dezembro adentra, embalado pelos Jingles Bell, Noite Feliz e outras torturantes melodias, além dos sinos pequeninos de Belém, sua ira emerge tão vigorosa quanto justificável – pelo menos ao seu entender. Nessa particular época do ano – e mesmo em qualquer outra época, sem qualquer particularidade – o artesão confessa que, de sua parte, de forma alguma almeja paz à humanidade e muito menos amor ao próximo.
E se irrita profundamente com a súbita, imensurável e ensurdecedora bondade conjunta que assola multidões de hipócritas e benemerentes de ocasião. Por essas e outras, festas, panetones, champagnes, perus e demais tradições excludentes o deixam fisicamente nauseado e moralmente ultrajado.
Assim sendo, toma como obrigação pessoal e intransferível elevar seus mais retumbantes protestos contra a submissão coletiva a tais encenações de falsidade que se repetem todos os anos inapelavelmente. Colaboram para a total indignação do Sapateiro, velhacos e velhacas que se dizem crentes e tementes a Deus. Esses escroques preferem especialmente crianças e idosos carentes para alardearem suas falsas bondades em ações prosaicas de curtíssimo prazo, que buscam tão somente o reconhecimento e a badalação pública, em detrimento à compaixão apregoada pelo Senhor.
O Sapateiro acha uma pouca vergonha usar inocentes desfavorecidos para negociar com Deus em determinado dia e hora festiva a remissão de pecados cometidos ao longo do ano. Em meio a fogos de artifício, luzinhas azuladas, pisca-piscas tremulantes, trenós tropicais e veadinhos iluminados – além do indefectível oh, oh, oh do Papai Noel – o Bruxelense não consegue entender o porquê de tanto desperdício de comida e bebida, partindo do princípio que o homenageado da vez é um pobre menino, nascido numa manjedoura infecta e abandonada.
Embora muitas pessoas procurem parecer melhores do que realmente são, outras procuram parecer pior. Para o Sapateiro – hipocrisia por hipocrisia – o segundo disfarce lhe cai mais justo e apropriado. Não contente em apresentar problemas, o calçadista aponta soluções.
Propõe que todos pratiquem mais a igualdade e a fraternidade no decorrer do ano vindouro. Assim, muitos evitariam a exposição degradante de bonzinhos de última hora. Para o Sapateiro o Natal deve ser comemorado em casa junto com a família, nos hospitais junto com os enfermos, nos asilos e orfanatos junto aos desamparados, com simplicidade e orações de gratidão ao menino que nasceu e morreu por todos nós. Amai-vos uns aos outros como eu vos amei (João 13:34-3).
Médico