O que você sabe em relação à qualidade da água dos riachos de Erechim e região? Com o objetivo de observar e desenvolver estudos e propostas de melhorias nesse campo, o Laboratório de Biomonitoramento da URI – campus de Erechim desenvolve pesquisas sobre os recursos hídricos da região Norte do Estado, há cerca de 20 anos.
Conforme o professor do curso de Ciências Biológicas da URI, Dr. Luiz Hepp, os primeiros trabalhos tinham como objetivo, avaliar a qualidade de água dos rios utilizando organismos bioindicadores. “Em um ambiente aquático, existe uma diversidade de organismos, tais como algas, insetos, crustáceos, moluscos, peixes. Eles têm uma relação muito forte com o ambiente e isso está relacionado à qualidade ambiental. Diante disso, o desenvolvimento desses organismos depende dessa qualidade, cujas características mudam conforme o grau de impacto das ações humanas”, explica.
Do mesmo modo, o professor pontua que algumas atividades, como o lançamento de esgotos domésticos urbanos sem tratamento, fazem com que o ambiente que recebe esses resíduos, tenha um aumento da sua concentração de nutrientes e matéria orgânica. Com isso pode haver uma diminuição da concentração de oxigênio. “Essas duas alterações são fatores essenciais para a manutenção da biodiversidade aquática. Sendo assim, a ideia dos estudos é avaliar quais os organismos que permanecem no ambiente, tanto em condições naturais como impactadas”, cita.
Método das pesquisas
De acordo com Hepp, inicialmente são definidos alguns ambientes com impactos bem característicos, por exemplo: urbanos, industriais, agrícolas. Há, também, alguns pontos que apresentam condições ecológicas melhores e são referência no trabalho. “São realizadas coletas de água e organismos invertebrados (insetos, crustáceos, anelídeos – minhocas, e os moluscos – caracóis). Como eles tem uma fase aquática em seu desenvolvimento, essa é a base do estudo. Após a coleta e identificação, a partir de modelos matemáticos, são feitas relações diretas com as características físico-químicas da água e da paisagem”, relata.
O Laboratório conta com o trabalho de 13 pessoas, sendo quatro pesquisadores, alunos da graduação em Ciências Biológicas e da pós-graduação em Ecologia. A unidade conta, ainda, com várias cooperações nacionais e internacionais. “Atualmente está sendo desenvolvido um trabalho junto à Furg e outro com a Universidade Federal de Santa Catarina, além de projetos em nível internacional”.
Avaliação do cenário
Conforme o docente da URI, ao longo dos anos de pesquisa, a equipe tem observado o desenvolvimento da região em vários aspectos, tais como expansão urbana, industrial e agrícola. “A qualidade dos rios da região sempre foi de razoável para boa, porém, há alguns rios em que a situação preocupa e o ambiente precisa de mais cuidado. Essa realidade se localiza, geralmente, em perímetros urbanos”, relata.
Outra questão, acrescenta o professor, é que a região possui uma altitude bem representativa, em torno de 750 metros. Isso faz com que a região tenha uma rede hídrica basicamente composta por rios de pequeno porte – conhecidos como nascentes, córregos ou ainda, sangas. “Além disso, como estamos em uma região alta, a maioria dos municípios interfere nessas nascentes e a tendência é que a bacia de drenagem faça o processo diante das ocorrências, em termos de paisagem. Isso faz com que haja uma diminuição da qualidade de água, desde as nascentes. O propósito é que, a partir dessas observações, possamos oferecer estratégias de melhorias”, alerta.
Nesse âmbito, Hepp salienta que muitas vezes as pessoas pensam que só a presença da vegetação ciliar é suficiente. “Ela é um suporte muito importante, mas a diversidade é fundamental, pois sempre vale lembrar que a qualidade do rio não depende exclusivamente da questão hídrica, mas sim, depende de toda uma estrutura externa, ao redor dela, e suporta um elevado nível de biodiversidade”.
O problema: desequilíbrio
Se no passado as pesquisas abordavam estratégias de conservação dos ambientes, hoje em dia o trabalho é focado na recuperação dessas áreas.
O grande problema atual, do ponto de vista do pesquisador, é o desiquilíbrio das ações do ser humano. “No curso de Engenharia Agrícola, por exemplo, há uma disciplina que discute estratégias de conservação de recursos naturais. Atualmente a agricultura utiliza muitos desses recursos, a nossa economia é primordialmente agrícola. Por isso, o grande desafio, inclusive do Laboratório e das pesquisas desenvolvidas, é entender e buscar alternativas de como é possível conciliar uma atividade que venha de encontro aos propósitos de desenvolvimento econômico, com a manutenção da integridade ecológica”, frisa.
A natureza, constantemente presta serviços e a água dos rios serve para abastecimento público. “No caso de Erechim, todo o descuido que tivermos em relação aos rios, dependendo da bacia hidrográfica, pode chegar à barragem de captação. Chegando lá, a empresa tem um tratamento técnico para tratamento dessa água. Sendo assim, devemos ter clareza de que, quanto mais sujo o rio estiver, mais suja é a água que deverá ser tratada. Como eles precisam garantir legalmente a qualidade, maior será o investimento em energia, em recursos para deixar a água potável. A conta será paga por todos”, comenta, declarando que muito se fala de desenvolvimento sustentável e ele passa por questões sociais, ambientais, econômicas, mediadas por políticas que envolvem os municípios, o Estado e o País.
É preciso avançar
Em paralelo às pesquisas, algo fundamental para a conservação dos recursos hídricos, é a colaboração de toda a comunidade.
Conforme Luiz, entre as ações importantes e que envolvem a população, está a aproximação com a comunidade acadêmica. “Nem sempre as pessoas sabem o que estamos fazendo, enquanto cientistas, para o desenvolvimento da comunidade. Essas alternativas podem ser usadas por outros setores, como o público. Nossos gestores tem a capacidade de ação e gestão dessas melhorias. Muitas vezes eles não tem um suporte em nível de informação e a academia não tem uma capacidade de ação”, destaca ao reforçar que a parceria do poder público é essencial.
Outro aspecto, segundo ele, é um interesse mais expressivo por parte de toda a comunidade em preservar o meio ambiente. “Não adianta fazer o cuidado da separação do lixo na minha casa, se o vizinho não fizer, por exemplo. No momento que todos entenderem que o meio ambiente não é do município de Erechim ou de outro, mas sim, que a preocupação é geral, as coisas podem melhorar bastante”, afirma o professor.