Hoje, 20 de novembro, é o Dia da Consciência Negra – feriado em alguns estados e em boa parte das cidades brasileiras. A data marca a morte do líder Zumbi dos Palmares, em 1695. Em Erechim, apesar da presença dos negros ser anterior à chegada dos imigrantes europeus no início do século XX, a população segue a busca por espaço.
Nesta entrevista, o Bom Dia traz um pouco da história de Leandro Souza Viera, 43 anos, formado em Ciências Contábeis na URI. Nascido na Capital da Amizade – e neto de um dos responsáveis pela instalação de linhas de telefones na região (seu avô João Garcia Vieira, funcionário da CRT, foi designado para o serviço no Norte do RS em 1976) – Leandro iniciou a jornada profissional desempenhando tarefas em duas organizações com atuação no segmento automobilístico. Depois, virou cobrador numa empresa local, se estabelecendo, mais tarde, no setor financeiro amealhando experiência num escritório de contabilidade até chegar à prestação de serviços em instituições bancárias da cidade, atuando como gerente de Pessoa Física, Jurídica e de Negócios. Atualmente, é representante comercial de uma marca de confecção com alcance nacional.
Boa praça e de fácil relacionamento, ele conta que já foi vítima de racismo. ‘Fui reprovado em minha primeira tentativa de emprego por ser negro’, revela. Na escola (pública e particular), também foi vítima de bullying. ‘Cresci com isso, mas aprendi a me defender. Era preciso’, comenta com serenidade para emendar saudoso: ‘Mas, não só lembranças ruins, não. Pelo contrário, na adolescência e vida adulta fui, e acredito que ainda sou, popular – até Destaque Elegância 1997 de Erechim recebi num dos bailes da cidade. Ou seja, me dei bem, também’, completa num sorriso largo.
Ao não se deixar abater, Leandro – que é carinhosamente chamado de ‘Black’ pelos amigos – construiu seu caminho sempre com humildade e respeito. ‘Quando sentia que a pessoa era maldosa nos comentários ou nas ações, eu não deixava barato. Porém, sem entrar na baixaria’, diz o rapaz que quando questionado se Erechim é uma cidade racista, observa que o preconceito é inerente não apenas ao negro, mas aos gays e, também, conforme a classe social.
Ele se emociona, no entanto, quando fala da avó, Maria Neves Souza Vieira (falecida em 1994), das tias e da mãe, Lia Marta Souza Vieira, responsáveis por sua criação e a do irmão. ‘Tenho um orgulho da minha mãe, assim como de meus avós’, diz, reconhecendo o esforço de todos. ‘Da minha família recebi a principal herança, que foi a educação e o entendimento de que, independente do meio onde eu estivesse, era preciso seguir em frente, buscando crescer e fazer o bem, não importa a quem’.
Saiba mais
# Assim como no total da população brasileira, as pessoas de cor ou raça preta ou parda constituem, também, a maior parte da força de trabalho no País. Em 2018, tal contingente correspondeu a 57,7 milhões de pessoas, ou seja, 25,2% a mais do que a população de cor ou raça branca na força de trabalho, que totalizava 46,1 milhões. Entretanto, diferente de Leandro – que detém um emprego bem remunerado e conseguiu construir boas oportunidades – em relação à população desocupada e à população subutilizada, que inclui, além dos desocupados, os subocupados e a força de trabalho potencial, as pessoas pretas ou pardas são substancialmente mais representadas – apesar de serem pouco mais da metade da força de trabalho (54,9%), elas formavam cerca de ⅔ dos desocupados (64,2%) e dos subutilizados (66,1%) na força de trabalho em 2018.
# Pior ainda são os dados da violência que acomete os negros. No Brasil, a taxa de homicídios, em 2017, foi 16 entre as pessoas brancas e 43,4 entre as pretas ou pardas a cada 100 mil habitantes. Em outras palavras, uma pessoa preta ou parda tinha 2,7 vezes mais chances de ser vítima de homicídio intencional do que uma pessoa branca. Em todos os grupos etários, a taxa de homicídios da população preta ou parda supera a da população branca, contudo, é preciso destacar a violência letal a que os jovens pretos ou pardos de 15 a 29 anos estão submetidos: nesse grupo, a taxa chegou a 98,5 em 2017, contra 34,0 entre os jovens brancos. Considerando os jovens pretos ou pardos do sexo masculino, a taxa, inclusive, chegou a atingir 185,0.
Quem foi Zumbi?
Zumbi nasceu livre no Quilombo dos Palmares, um refúgio de escravos fugidos localizado onde está hoje a Serra da Barriga, no interior de Alagoas – que em seu auge teve extensão territorial equivalente a de Portugal e população estimada em 30 mil pessoas (mais de dez vezes o contingente da maior cidade brasileira da época, Salvador).
O quilombo começou a se formar por volta de 1580 com escravos fugidos dos engenhos de açúcar nordestinos. A partir de 1630, com os ataques holandeses, primeiro a Salvador e depois a Recife, o refúgio teve incremento populacional e criaram-se condições para que se tornasse ‘estado soberano’ no meio do Brasil. Havia gente para produzir alimentos, realizar pequenas manufaturas e até para organizar um sistema de defesa militar muito superior às guarnições portuguesas do litoral. Por essa razão, a localidade foi capaz de resistir por mais de um século a uma série de ataques.
Palmares tinha governo próprio, leis, economia, exército e soberania total em relação ao Brasil. Mas nada disso incomodava a colônia mais que o fato de que entre os escravos do litoral corria a notícia da existência de uma terra próxima governada por negros livres que não se submetia de nenhuma forma à autoridade do homem branco. No litoral, o temor era que os escravos mais numerosos que os demais habitantes se rebelassem. Tanto que em 1678, o governador da capitania de Pernambuco fez uma oferta de paz. A proposta incluía a libertação dos habitantes de Palmares, que na perspectiva da Coroa ainda eram escravos, desde que se submetessem à autoridade colonial. Palmares ignora a oferta e os conflitos continuam. Num desses conflitos, Zumbi ainda menino é capturado e entregue aos cuidados de um religioso com quem aprende latim e português. Na adolescência, ele foge, retorna ao quilombo, junta-se às forças de defesa e, com sucessivos sucessos no campo de batalha, acaba alçado ao comando máximo do Quilombo com 20 anos de idade.
Quinze anos depois, a capitania recruta bandeirantes paulistas para lutar ao seu lado. Nesse momento a sorte do conflito começa a se tornar favorável à capitania. Em 1694, Zumbi é traído. Acaba gravemente ferido na região conhecida como Serra Dois Irmãos, em Alagoas. Foge, recupera-se e ainda lidera os combates por mais um ano, mas cairia em 20 de novembro do ano seguinte. Palmares foi finalmente derrotado. A cabeça de Zumbi permaneceu exposta por meses no centro de Recife para deixar claro aos escravos que seu líder mítico havia sucumbido.