Moro no topo de um morro, Morro da Cegonha, Erechim RS. A casa é linda e fica a 800 metros de altitude, bem pertinho do céu.
Nasci nessa cidade, meados do século passado. Mesmo com a minha chegada não éramos muitos por aqui, menos de trinta mil habitantes povoavam o imenso município à época, depois desmembrado. Hoje passamos, mais apertados, dos cem mil moradores.
Minha modesta colaboração demográfica fica por conta de duas maravilhosas filhas, que muito amo e das quais tenho imenso orgulho. Sei que, por parte delas, a recíproca é verdadeira.
Vivi uma infância feliz e fora algumas quedas de árvores, arranhões provocados por outros tombos, cortes, pedradas e hematomas de diversas origens, passei incólume pelo tenro período.
Fiz coisas incríveis na meninice: banho de uvas com direito a saltos, mergulhos e piruetas na cantina do avô Mandelli - muito melhor que qualquer piscina, banheiras ou mares que viria a provar em outros tempos mais graúdos e menos felizes.
A adolescência não foi tão pacífica assim. Por motivos de força maior, sobrevivência e extrema paciência do pai, pouparei o leitor de detalhes nesse breve relato.
A idade adulta veio depois - se é que algum dia tenha chegado plenamente.
Sou resultado genético de uma mistura comum em nosso meio e nem por isso deveras recomendável. Do lado paterno bisneto de alemães, guardo alguma teimosia e gosto pela música - embora sequer saiba tocar sino. O avô Emilio Stumpf, procedente de São Leopoldo, dentista prático e nômade desbravador, capitão do exército revolucionário e gentilíssima pessoa, foi exímio violonista; tocava também, violino, bandolim, flauta e cavaquinho entre outros instrumentos; animava festas locais, aniversários, quermesses, serestas e bailes de outras saudades. Seu amor à música está registrado na ata de fundação do município de Carlos Gomes RS, da qual participou intensamente.
O sangue materno é forte. Igualmente bisneto de emigrantes, tenho muito orgulho da têmpera e do nome que herdei. Alcides Mandelli, meu avô, industrial, comerciante visionário e grande empreendedor, deixou imenso legado ainda hoje percebido pela família.
Meu pai foi pessoa de bom caráter, bom coração e passou feliz por essa existência. A mãe vive no litoral de Santa Catarina rodeada pela filha, neta e bisneta. Uma legítima galinha choca, como ela mesmo diz entre um carteado e outro.
Nasci e cresci por aqui, mais em idade e volume que em sabedoria.
Fui aluno dos colégios Franciscano São José, Marista Medianeira e Estadual Mantovani. Depois veio uma década preciosíssima de estudos fora. Em Pelotas, na Universidade Católica, cursei Medicina e em Porto Alegre fiz Residência Médica em Pediatria no Hospital Presidente Vargas. Mesmo estudando predominantemente em escolas católicas, estou longe da santidade.
Depois passei o resto da vida estudando aqui ou acolá. Fiz outras pós-graduações e até andei pelo Vale do Silício para me atualizar.
O fato é que sempre volto e voltei com todo gás. Até hoje tento devolver à minha terra o que dela gentilmente recebi.
Vão na minha conta de médico algumas bagagens pessoais, particulares (as mais valiosas) e outras coletivas.
Com colegas de especialidade criei duas UTIs pediátricas que (re) existem e funcionam muito bem ainda hoje. Até um hospital ajudei a fundar, além de participar intensamente da vida cultural do Estado. Tenho muita sorte, sim.
Quando jovem, acordava cedo e dormia tarde, quando dormia.
E quando o tempo sobrava me dedicava a palavra escrita. Inicialmente para ler. Depois, bem depois, escrever.
Escrevi algumas crônicas publicadas em jornais locais e estaduais. Sou editor de uma revista cultural, já tem alguns anos. Nunca passei disso. A coletânea de alfarrábios se transformou em livro que batizei de Amigos e Medos – obviamente dedicado aos amigos e não aos medos, que por bem e graça de Deus, estão indo antes de mim. Assim, como nunca fui aluno brilhante, tampouco sou escritor.
Hoje tenho outros trabalhos constantes fora daqui, em Porto Alegre, lido com Sustentabilidade e outros afazeres edificantes, tanto como médico bem como cidadão. Vivo quase mais lá que aqui. E aí, por extrema bondade, os confrades da Academia Erechinense de Letras (AEL) resolveram - não sei bem o porquê - me convidar para seus quadros.
Caprichei no discurso de posse e por ora – como vocês podem observar – sou imortal.
Vivo e escrevo em Erechim que é o lugar que sempre amei e que enxerguei a luz do sol pela primeira vez. E se o Senhor for bom comigo, daqui também a enxergarei pela última vez.
Dr. Alcides Mandelli Stumpf
Médico