Acompanhei nos anos 2000 toda a crise da Cotrel, e antes disso toda sua pujança e o orgulho que todos sentiam em dizer que “a Cotrel é de Erechim”. Mas com o tempo o orgulho foi substituído por frustração e para muitos, por prejuízo.
Acesso a uma carta de 1992
Tive acesso a uma carta, escrita numa máquina de escrever, em 1992, onde um agricultor de Paulo Bento, associado da cooperativa alertava para os riscos que estavam por vir, mesmo com todo mundo aplaudindo.
As mudanças que não vieram
Esse agricultor analisa os números do pleito eleitoral na Cotrel, afirmou que os resultados das urnas ‘poderão provocar radicais mudanças de filosofia na cooperativa”. Para ele, mesmo com a vitória da situação, a oposição saiu fortalecida, pois a diferença foi de menos de 5% do quadro social, insignificante considerando-se o ‘peso da máquina’.
O apoio do prefeito, de partidos e alguns padres
Fala do apoio que o vencedor teve do prefeito de Erechim na época e de seu partido na região, além de alguns padres católicos: “mesmo assim, os donos do poder não conseguiram motivar 20% dos associados, que se abstiveram de votar, a maioria desiludidos. Isso demonstra que mais de 50% não aprova a política adotada na Cotrel”, segue à carta.
Os associados foram empobrecendo
A partir desse momento da carta datilografada, começam os questionamentos: “o grande crescimento do patrimônio e a tão cantada diversificação são sinônimos de cooperativismo? Sabemos que a Cotrel representa 15% da arrecadação do município de Erechim. A quem isso interessa? Quem são os verdadeiros beneficiados? Será que os associados estão tendo uma melhoria de vida, um enriquecimento, na proporção do crescimento da cooperativa? Temos certeza que não. A grande maioria está mais empobrecida hoje, do que 10 anos atrás. Enquanto isso poucos são os que realmente beneficiaram-se, dirigentes e funcionários, enriqueceram com altos salários”.
Poucos iluminados conhecem os ‘segredos’
Cita Frankenstein para exemplificar o que estava vendo: “a exemplo daquele médico fictício que criou um monstro, perdendo depois o controle sobre o mesmo, é o que está acontecendo na maioria das cooperativas. Depois de transformadas em monstros, pouquíssimos ‘iluminados’ conhecem os segredos, que estão por detrás da complexidade e dos números. E os verdadeiros donos, aqueles que são a própria cooperativa, ficam totalmente marginalizados (agricultores).
O nome das pessoas
A carta traz nomes das pessoas (que não publiquei), os inimigos que se aliaram, e o agricultor, que anteviu o fim da cooperativa encerra com a seguinte frase: “meu pai foi um dos tantos fundadores da Cotrel. Morreu pobre, em 1987, aos 74 anos de idade”.
Não se pode deixar morrer a história
Resolvi trazer isso a público, pois muitos ainda sofrem, com a derrocada da Cotrel (por vários motivos). Choram por ter acreditado em algo que por um tempo era a ‘bala de prata’ de qualquer agricultor. Era status fazer parte da cooperativa. Mas que com o tempo virou um monstro maior que Frankenstein. O orgulho se transformou em vergonha. Não se pode deixar morrer essa história (principalmente quando não é boa), até para as gerações saberem o que deve ou não fazerem.