Um vídeo da empresária erechinense, Zita Maria Fachim Ársego, de 52 anos, rodou o mundo nos últimos dias. O depoimento foi filmado por ela mesma enquanto prestava serviços comunitários no Colégio Bela Vista em Erechim. O desabafo teve mais de 500 mil visualizações, 15 mil compartilhamentos na internet, com mensagens de diferentes partes do planeta. Mas porque isso aconteceu? Zita, com sorriso no rosto, afirma que as pessoas se identificaram com o que ocorreu.
A empresária foi renegociar uma dívida de quase R$ 500, que a meses vinha tentando achar opções para a devedora pagar, via celular. A questão é que, uma única vez, depois de Zita ser bloqueada no celular, ela foi até o local de trabalho da devedora para conversar. E esse foi o problema. A partir daí foi intimada, na audiência já estava determinado as suas opções: pagar um salário mínimo ou prestar serviços comunitários.
Último recurso
“Ir conversar com a pessoa foi o meu último recurso, depois de oito meses tentando, não pensava que ia acontecer isso, até porque a conhecia, ela frequentava a meses o restaurante. A gente não acredita que a pessoa vai tomar esse tipo de atitude, sempre se acredita no lado bom da pessoa, no lado positivo”, afirma. Zita é empresária do ramo de alimentação, atividade que exerce há 10 anos, antes disso foi bancária por 22 anos, sendo também durante 14 anos professora universitária.
Serviço comunitário
A empresária disse que se sentiu mal. “Me senti impotente, não podia fazer nada com relação à pena que estava recebendo. Não tive a opção de apresentar uma defesa, o meu lado, não tive como recorrer, aí optei pelo serviço comunitário, porque além de ter perdido quase R$ 500, ainda teria que desembolsar um salário mínimo, quase mil reais, e hoje é difícil manter um negócio aberto, diminuiu o movimento pela situação econômica e, também, por termos um leque maior de opções”, diz.
A empresária está cumprindo o que foi determinado, as 84 horas de serviços comunitários no Colégio Bela Vista, o que dá uma média de três meses de serviços, mais ou menos três horas por noite. Ela conta que já fez um pouco de tudo, cozinhar, molho, cobertura para 400 bolachas natalinas, lasanha, bolo salgado para reuniões, tortas, doces e limpeza.
Com os serviços comunitários a rotina de trabalho ficou ainda mais acelerada, ela fica até as 16 horas no restaurante, depois sai para fazer banco, compras no mercado, volta para o restaurante para fazer, sozinha, 30 marmitas para empresas. “Depois, corro para o Colégio Bela Vista que é do outro lado da cidade para o serviço comunitário, chego às 19h e pouco, fico até às 22h30”, diz. E acrescenta, “já cumpri uma parte em dezembro, como em janeiro a escola entrou em férias, janeiro, fevereiro, março não fui. Nesse meio tempo, peguei contrato de duas empresas para entregar a janta à noite, parei de ir lá, semana passada recebi intimação para voltar a cumprir o restante das horas, faltas umas 30 horas, uns 10 dias de serviços, mais ou menos isso”, afirma.
Avaliação
Segundo Zita, “o Brasil tem leis que dão muita brecha para quem não age corretamente, para quem não é honesto, pune muito quem trabalha, gera emprego e renda. A gente se sente impotente diante de algumas injustiças da Justiça, não tendo o que fazer, não tive nem como questionar isso”, diz.
Incrédula
A empresária se sente um pouco descrente com os valores que ela própria ao longo de sua vida cultivou. “Com tudo aquilo que a gente recebe da família, que é ser eticamente e moralmente correto, fazer a coisa certa, trabalhar certinho, não prejudicar ninguém, pagar os funcionários e as pessoas corretamente”, diz.
Conforme Zita, para qualquer pessoa pode acontecer de ficar devendo em função de ter dificuldades ou perder o emprego. “Também já fiquei devendo, isso é normal, o importante é conversar, mostrar que se tem vontade de pagar, pode ser aos pouquinhos”, comenta.
Saldo
A empresária está terminando de pagar a “sua” conta para a sociedade, e não tem nenhuma garantia de receber a dívida que resultou em toda essa situação. “Vai ficar por isso mesmo, mas eu paguei a minha pena”, diz.
Para Zita, a Justiça brasileira tem muito a melhorar e evoluir, tudo ocorreu a partir de um boletim de ocorrência, um posicionamento unilateral. “O que ela disse virou verdade e teve consequências para mim, foi assim que eu vi, me senti e estou nessa situação”, afirma.
Ela tem um sentimento de ressentimento e vê o Brasil como uma terra sem lei. “O ladrão, bandido, malandro leva vantagem, e quem trabalha é penalizado. A gente se sente usurpada pela Lei, não se espera isso”, diz.
Zita comenta que depois que postou o vídeo muitas pessoas se solidarizaram com ela, recebendo mensagens nas redes sociais de diferentes países e línguas. “Recebi muitas mensagens em inglês, do Cairo no Egito, Lima no Peru, Argentina. As solicitações de amizade explodiram nas redes sociais”, afirma.