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‘Fico triste e preocupado em saber que mais de 50% dos jovens não sabem o que foi Auschwitz’

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Andreas Jordan reforça a importância de manter a discussão a respeito do Holocausto acesa, para que
Por Salus Loch
Foto Arquivo Pessoal/Divulgação

Há exatos 80 anos tinha início, com a invasão da Alemanha à Polônia - em 1º de setembro de 1939 - a Segunda Guerra Mundial. Mais de 50 milhões de pessoas foram mortas durante os seis anos de conflitos, vencidos, ao final, pelos países Aliados: EUA, Grã-Betanha, União Soviética e França.

A Guerra também legou à humanidade o Holocausto, quando 6 milhões de judeus foram mortos de forma planejada e sistemática por Adolf Hitler e seus seguidores nazistas, a maioria em campos de extermínio e de concentração.

Nesta entrevista exclusiva, realizada por email, o Bom Dia fala com Andreas Jordan, 57, nascido na cidade alemã de Essen e que hoje mora em Gelsenkirchen - onde o Terceiro Reich estabeleceu um campo de trabalho forçado que recebeu mais de 2000 meninas e mulheres judias em 1944, entre as quais Gitta Gabriela Schwartz Heilbraun, 91, personagem principal do livro ‘A Tenda Branca’ - romance que escrevi em 2017.
Andreas Jordan estuda desde o início da década de 1990 a Segunda Guerra e o Holocausto, sendo o mantenedor de uma entidade beneficente e um site que discutem o tema com o compromisso de não deixar cair no esquecimento uma das mais tristes passagens da história dos homens. Confira os principais trechos do bate-papo.

 

Bom Dia – Como começou a pesquisar sobre o Holocausto e por quê?
Andreas Jordan - O tema me interessou desde pequeno. No entanto, foi a partir dos anos 1990 que me envolvi com mais profundidade após assistir uma série na TV chamada ‘Holocausto’, que abriu uma grande discussão pública aqui na Alemanha e em boa parte da Europa. Resolvi conhecer mais sobre esse passado que nos mancha. Queria saber o que exatamente tinha acontecido durante o Holocausto, e como poderia algo tão monstruoso ocorrer.

 

Bom Dia - Como se dá o processo de busca de dados e informações?
Andreas Jordan - O primeiro passo foi coletar todos os tipos de informações de livros e documentações. Então, com o lançamento da Internet, a pesquisa tornou-se muito mais fácil, a partir do acesso a diversas fontes mundiais e bancos de dados. Em 2005, fundei a associação sem fins lucrativos ‘Gelsenzentrum’, uma entidade beneficente que lida com a história cultural e contemporânea regional de Gelsenkirchen. Depois de alguns projetos de pesquisa, me concentrei mais e mais em nossa história local. Havia, no entanto, tantas ‘manchas brancas’ em relatórios públicos e publicações do tempo, que fiquei desconcertado com a visão tendenciosa da história dos anos 1933 (quando Hitler chegou ao poder na Alemanha) e 1945 (quando a Segunda Guerra chegou ao fim). Devido a isso, em 2009, criei o site ‘Gelsenzentrum’, que se transformou num trabalho de referência on-line com foco principal na história local, no contexto geral da época do fascismo alemão.

 

Bom Dia - O Sr mora próximo ao antigo campo de Gerlsenkirchen. Qual é a história do local e a importância dele no sistema nazista?

Andreas Jordan - Em termos de organização, Gelsenkirchen era um satélite do campo de concentração de Buchenwald, oficialmente chamado de ‘SS Arbeitskommando Gelsenkirchen Horst’. Entre julho de 1944 e meados de setembro daquele ano, consistia de várias tendas atrás de arames farpados e de um relógio-torre. Mais de 2.000 meninas e mulheres judias foram detidas lá. Elas haviam sido escolhidos no campo de extermínio de Auschwitz e, então, deportadas a Gelsenkirchen como trabalhadoras escravas para atuarem na usina de carvão, vital para o esforço de guerra alemão. O campo em Gelsenkirchen foi dissolvido após ataques aéreos Aliados, onde muitas das prisioneiras perderam a vida, pois a elas não foi concedido o direito de se abrigarem nos bunkers ou nos refúgios de proteção.

 

Bom Dia - Quantas pessoas foram mortas em Gelsenkirchen?

Andreas Jordan - O local, em essência, era um campo de trabalho forçado; e não uma unidade de extermínio propriamente dita. Não havia câmara de gás. Mas, as mulheres foram permanentemente expostas à arbitrariedade brutal e cruel dos guardas da SS, enfrentando assassinatos e mortes todos os dias. Após o fim do campo, as sobreviventes foram movidas para dois caminhos distintos. Estima-se que cerca de 540 foram para o sub-campo de Essen, e outras 1.200 ao sub-campo de Sömnada (Rheinmetall Borsig AG).

 

Bom Dia - Como era a condição das prisioneiras de Gelsenkirchen?
Andreas Jordan - Terrível. O peso médio das mulheres não era superior a 40-45 kg. Havia desnutrição permanente e a falta de cuidados médicos somada à paupérrima situação de higiene conduziu a diversos casos da morte causados pela febre tifóide. Oito mulheres grávidas foram selecionadas e transportadas para Auschwitz para serem assassinadas.

 

Bom Dia - De que maneira o Sr teve acesso ao nome e história da Gitta?
Andreas Jordan - Encontrei o nome dela na lista das prisioneiras de Gelsenkirchen há alguns anos e, após uma postagem de uma palestra dela no Museu do Holocausto de Curitiba, em abril de 2019, tomei conhecimento de que ela estava viva. Eu curti aquele post no Facebook e, então, você entrou em contato comigo pela rede social. Foi, digamos, uma feliz coincidência. Não conheço, no entanto, ninguém da família dela. No momento, um voluntário está traduzindo material que retrata o caminho de provação dela, mencionado em uma documentação que lida com o campo de Gelsenkirchen, o qual deve estar disponível na Internet nos próximos meses.

 

Bom Dia - Qual é a importância de discutirmos o Holocausto hoje? O Sr imagina que a barbárie possa se repetir?

Andreas Jordan - Fico triste e preocupado em saber que mais de 50% dos jovens não sabem o que foi Auschwitz. Eles simplesmente não sabem o nome do lugar que se destaca como um sinônimo para o Holocausto (Shoa). Há obviamente um déficit educacional, e isso me assusta, denotando o pouco interesse no assunto. A mudança para a direita em toda a Europa e na Alemanha é perigosa, pois percebemos o crescimento do racismo com todos os seus excessos. Os democratas devem se unir e alertar sobre os riscos inerentes. Eu não acho, porém, que um crime contra a humanidade como Holocausto terá lugar novamente no formato dos anos 30 e 40. Para mim, não é mais imaginável hoje. Contudo, é de extrema importância que o conhecimento seja transmitido às gerações vindouras. Precisamos discutir como o Holocausto aconteceu! É vital comunicar valores e uma concepção moral para armar os jovens contra o antissemitismo, torná-los resistentes ao racismo e protegê-los da hostilidade em relação aos estrangeiros.

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