A qualidade dos debates fez com que o seminário 'O Brasil que saiu das urnas - e as novas perspectivas de representação', promovido pelo MDB/RS em parceria com a Fundação Ulysses Guimarães, não tivesse 'cara' de encontro político.
O evento, realizado no sábado (16), em Imbé, no Litoral Norte, reuniu mais de 300 pessoas que ouviram painéis a respeito do 'Papel do Estado na economia', ministrado pelo economista Gustavo de Moraes; 'A atuação dos partidos no novo contexto político', sob a responsabilidade do cientista político Fernando Schüler; e 'A influência das mídias sociais no meio político eleitoral', com o filósofo Luiz Felipe Pondé.
A reportagem do Jornal Bom Dia também esteve lá e, de forma objetiva, traz um resumo das palestras - que vão além do universo medebista e da própria esfera político-partidária. Confira:
A economia do futuro
O coordenador do curso de Economia da PUC-RS e escolhido "O Economista do Ano" pelo Corecon-RS, Gustavo de Moraes, abriu os trabalhos do seminário falando sobre os entraves para o desenvolvimento a partir da atuação do Estado: despesa maior que a receita, déficit previdenciário e visão focada no passado (como o pagamento de juros e empréstimos antigos). "Apesar do bom desempenho econômico no século XX e de o Brasil ter registrado participação no mercado mundial, o Estado não deu várias respostas à população", definiu Moraes, para quem "estamos apagando incêndios ao invés de apresentar soluções de futuro. Precisamos colocar pilastras para o castelo onde as pessoas irão morar".
Como alternativa, opinou que o caminho para a recuperação econômica é impulsionar atividades que envolvam a indústria criativa, o lazer/cultura e a integração das pessoas, com foco na abertura de oportunidades aos mais jovens. "A função do Estado nesta primeira metade do século XXI é de ser um facilitador e conduzir o cidadão para uma nova esperança", finalizou o economista.
Ciclos
O cientista político Fernando Schüler, segundo painelista do evento, falou sobre "A atuação dos partidos no novo contexto político". Para ele, o momento é desafiador. Sua principal dica foi de que não é possível reconstruir a democracia no "velho estilo". Schüler sugeriu que quem tiver liderança precisa assumir o papel de condutor do processo da reforma política que, na sua opinião, é um vácuo da vida brasileira.
Questionado no evento se a democracia estaria ameaçada com a eleição do presidente Bolsonaro, foi taxativo ao negar. O cientista político enfatizou que apesar de estarmos num novo cenário - onde a população tem voz através da tecnologia digital -, as instituições brasileiras são fortes e independentes. "Prova disso é que sobrevivemos ao PT e iremos sobreviver ao Bolsonaro", criticou, para o deleite de boa parte dos presentes.
Segundo o ex-secretário do governo Yeda Crusius, o político de hoje precisa saber lidar com realidades complexas e com os novos meios - reconhecendo o poder de mobilização popular através das mídias sociais. "Quem imaginou que depois de 70 anos acabaria o imposto sindical? A política é feita de ciclos. É preciso perceber as mudanças e fazer a autocrítica para se renovar", finalizou.
Fake news e a democracia
"Ironicamente, por força das circunstâncias, começamos esse painel sobre mídias sociais com auxílio delas", brincou o filósofo e escritor Luiz Felipe Pondé, ao fazer referência ao tema de sua exposição. Impossibilitado de participar presencialmente, Pondé abordou "A influência das mídias sociais no meio político-eleitoral" através de vídeo conferência.
Para ele, apesar de as mídias sociais representarem o "quinto poder" - pela sua capacidade de mobilização e disseminação - não tiram a função da imprensa tradicional e também da atuação publicitária. "Combater as fake news é papel da grande mídia, ao pesquisar e apurar as notícia", ponderou, citando ainda: "hoje, estamos mais sofrendo com as mídias sociais do que liderando-as", arrematou para em seguida alertar: "deixar a democracia nas mãos das mídias sociais é abdicar da racionalidade da gestão pública".
Pondé explicou que as fake news não são um problema atual, e que acompanham a democracia há tempos. "O que as redes sociais deram foi mais poder ao cidadão, fazendo dele um emissor. Antigamente ele só era emissor no almoço de domingo. Agora está replicando essa informação em rede", contextualizou.
O MDB se diz 'de centro'
As intervenções do seminário também convergiram para o entendimento de que uma política 'de centro' seria o melhor caminho para o desenvolvimento do país, diante deste novo momento. "A sociedade no seu cotidiano tende ao centro. Um governante ajuizado também", opinou Luiz Felipe Pondé - ao que o deputado estadual Gabriel Souza, mediador do painel de Pondé - fez coro, sugerindo que o MDB é um 'partido de centro'.
Avaliação
Ao jornal Bom Dia, o presidente do MDB gaúcho, deputado federal Alceu Moreira, destacou que o seminário 'alcançou seus objetivos' ao "promover discussões que abasteceram os filiados de informação de qualidade, buscando, por meio de análise crítica, a construção de novos conceitos e descobertas".