O trabalho de reciclagem está diretamente ligado à qualidade de vida da população e a forma como a sociedade e o consumo estão organizados. Hoje, Erechim tem cinco instituições que trabalham com reciclagem, e uma delas é a Associação dos Recicladores Cidadãos Amigos da Natureza (Arcan), no Bairro Progresso em Erechim (RS). O processo de reciclagem está sendo prejudicado no município pela ação ilegal e irregular de reciclagens clandestinas, afirma o presidente da Arcan Paulo Roberto Gomes. Essa situação vem piorando a cada ano e comprometendo o sustento das famílias que trabalham em conformidade com a lei, como a Arcan.
Sem reciclagem as pessoas viveriam em meio ao lixo, expostas a doenças de todo tipo, comprometendo a produção de alimentos e a natureza, água, enfim, a vida. As cidades seriam montanhas de rejeitos inabitáveis. Pintar esse cenário caótico é importante para mostrar a sua relevância na sociedade atual baseada cada vez mais no consumo. E, principalmente, das famílias que realizam esse serviço.
Segundo Paulo, desde o ano passado esse problema vem se agravando e traz prejuízos para as 22 famílias da associação que dependem da reciclagem para viver, com a redução do rendimento. Em média um reciclador recebe por mês um salário e meio, isso se tiver material para trabalhar.
Outro aspecto negativo é também o impacto ambiental. Isso porque os recicladores clandestinos aproveitam o material bom e o restante, que é ruim e não tem como dar uma destino correto, jogam dentro do rio poluindo o meio ambiente.
Já a Arcan, faz justamente o contrário, depois de separar o que pode ser comercializado, os rejeitos são embalados e recolhidos por uma empresa que dará a destinação certa. Todo o material que a Arcan recicla é trazido pela empresa terceirizada e contratada pelo município para fazer a retirada desses resíduos das casas.
Conforme Paulo, o que falta é fiscalização por parte da prefeitura para impedir o recolhimento ilegal do lixo na cidade, com isso tudo voltaria ao normal. Com a interferência dos recicladores clandestinos, do ano passado para cá, já houve uma redução de mais de 50% no volume de material reciclado pela associação. “Antes a carga chegava cheia, agora vem menos da metade, temos que tirar dois bags de lixo para fazer um”, afirma.
Além de diminuir o volume de material para ser reciclado, também afeta a qualidade dos resíduos que chegam na associação, porque os particulares que coletam irregularmente priorizam o que tem mais valor de venda, como o papel, papelão, plástico e as latas deixando só os rejeitos sem valor comercial.
A Arcan surgiu há mais de 10 anos depois do fechamento do antigo aterro sanitário, justamente para regularizar a situação dos catadores na época e profissionalizar a reciclagem no município.
“É proibido recolher o lixo, mas ninguém fiscaliza, já entramos em contato várias vezes com a prefeitura, fizemos reunião, desde o ano passado a gente vem batendo em cima disso e ninguém ouve”, afirma Paulo.
Essa situação está ficando cada vez mais preocupante, na semana passada a Arcan ficou sem material para reciclar, isto é, sem ter o que vender e produzir renda. “Estamos deixando acumular material para conseguir trabalhar, não vem as cargas que era para vir”, diz.
De acordo com Paulo, a Arcan tem licença para operar, recentemente fez investimentos em segurança e para combater incêndios, tem muros para isolar o pátio do córrego que passa no fundo do lote, busca fazer o seu trabalho com tudo em dia. Ele diz que os particulares, que trabalham independente, tem casos que colocam até crianças separar o lixo, enquanto o homem sai para recolher o material com a camionete.
Paulo explica que o que mais prejudica o funcionamento das recicladoras legalizadas do município são as diversas camionetes que diariamente carregam ilegalmente uma grande quantidade de material. “Agora, se a gente fizesse isso seria multado e perderia a licença para trabalhar na associação”, comenta.
A reportagem entrou em contato, ainda na manhã de quinta-feira (7), com a assessoria de imprensa do município, mas até o fechamento da edição não houve resposta da prefeitura sobre o assunto.