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‘Em Coimbra, a universidade é protagonista no debate público’

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Luís Fernando Santos Corrêa da Silva
Por Salus Loch
Foto Divulgação

Depois de passar um ano como investigador visitante em estágio pós-doutoral na Universidade de Coimbra, em Portugal, o professor da UFFS/Erechim, Luís Fernando Santos Corrêa da Silva, está de volta à Capital da Amizade. Nesta entrevista, ele avalia a experiência, estabelece comparativos entre o ensino superior português e o praticado em terras tupiniquins – destacando que no caso europeu a universidade é protagonista do debate público, além de falar de futebol, percepção do Brasil no mundo e governo Bolsonaro. A seguir, os principais trechos do bate-papo.

O Sr acaba de voltar de Portugal. Qual sua avaliação da experiência e como retorna de lá?

O Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra é um espaço de excelência na área de humanidades. A participação em atividades de ensino e pesquisa possibilitou aprofundar conhecimentos em temas relevantes para o desenvolvimento social contemporâneo, bem como permitiu o diálogo e o estabelecimento de redes com pesquisadores latino-americanos, africanos e europeus que também realizavam estudos no âmbito do CES. Soma-se a isso a experiência de morar no exterior por um ano, que permitiu vivenciar cotidianamente outras culturas, em Portugal, mas em países que tive a oportunidade de visitar. Certamente retorno com outro olhar sobre a Europa e sobre o próprio Brasil. Viver no exterior permite romper com idealizações sobre a vida em outros países, bem como questionar ideias e práticas que são entendidas como naturais no nosso país de origem.

Analisando a qualidade do ensino superior de Portugal e Brasil, em que estágio estamos? Há algo que possa ser implantado na UFFS?

São modelos bastante diferentes. Frequentei como convidado duas disciplinas ministradas pelo professor que supervisionou meu estágio. O tempo de permanência dos estudantes em sala de aula é menor, as aulas são mais centradas no professor, mas, ao mesmo tempo, se aposta na autonomia do estudante, que tem mais tempo livre para leituras e desenvolvimento de projetos. Outro aspecto é o fato da Universidade de Coimbra não contar com ensino noturno – fazendo com que os estudantes disponham de turno integral para os estudos. No Brasil, que possui imenso passivo histórico em termos do acesso à educação superior, a necessária inclusão dos trabalhadores à universidade acaba por criar um paradoxo: oferece-se a oportunidade de formação para quem não conseguiu estudar durante a juventude, mas em um momento da vida em que o trabalho e o auto-sustento são prioridades, o que impede a dedicação integral aos estudos. Ademais, a modalidade de ensino a distância praticamente inexiste em Portugal, visto que o país aposta no ensino presencial. Em relação ao que presenciei e que pode ser implantado na UFFS, destaco algo que percebi nas primeiras semanas em Coimbra: a universidade é protagonista no debate público sobre as questões locais e nacionais. Há um esforço permanente para aproximar a universidade da sociedade e compreende-se que este processo nunca está acabado. Como instituição pública, precisamos que a UFFS seja cada vez mais promotora do debate público qualificado.   

De que forma Portugal acompanha o desenrolar das coisas no Brasil? Como avaliam a eleição do presidente Bolsonaro?

Inicialmente é importante esclarecer que, politicamente, a sociedade portuguesa tende ao centro. Desse modo, enxerga-se com alguma preocupação o avanço da extrema-direita, principalmente na Europa, mas também no Brasil. Hoje, Portugal é governado por uma coalizão de centro-esquerda encabeçada pelo Partido Socialista. Nos últimos anos, o país conseguiu sair da crise econômica e reduzir o desemprego se contrapondo, até certo ponto, às medidas de austeridade recomendadas por organismos econômicos internacionais. Exceto por setores sociais que possuem pouca representatividade, Bolsonaro não possui um imagem positiva. Isso se deve principalmente pelo teor de declarações do passado, que são impensáveis no contexto português. Aliás, fui convidado para um debate na Universidade de Coimbra sobre o futuro do Brasil três dias após o segundo turno das eleições presidenciais. Na ocasião, um dos debatedores era um político de extrema-direita chamado André Ventura, considerado por muitos como o “Bolsonaro português”. Ele próprio manifestou desconforto com a comparação.

Falando em Bolsonaro, a obra do educador Paulo Freire vem sofrendo críticas de pessoas ligadas (e simpáticas) ao governo. Como Paulo Freire é percebido na Europa?

Paulo Freire é o principal intelectual brasileiro de todos os tempos, possui reconhecimento no mundo todo e não é diferente na Europa. Aliás, tive a oportunidade de conhecer a Escola da Ponte, na região do Porto, que adota princípios pedagógicos que valorizam a autonomia dos estudantes e que dialogam com a perspectiva do educador brasileiro. A demonização a que tem sido submetido o pensamento de Paulo Freire certamente serve a interesses alheios ao de uma educação verdadeiramente de qualidade.

O Sr visitou dez países europeus. Qual mais lhe chamou a atenção e por quê?

Cada país tem as suas peculiaridades. Na maioria dos países permaneci poucos dias, durante feriados ou finais de semana prolongados. Contudo, destaco o leste europeu, e mais particularmente a Rússia, em termos históricos e pelo choque cultural. Achei a culinária russa espetacular e diversa. Cidades como Madri, Amsterdam e Londres são belas e inesquecíveis.

O Sr é um torcedor colorado entusiasmado e amante do futebol. Conseguiu acompanhar algo por lá?

Acompanhei sempre que possível. Inclusive, cheguei à conclusão de que os portugueses são mais fanáticos por futebol que nós, brasileiros. De modo geral a Europa respira futebol e as pessoas se mobilizam por conta dele. O Campeonato Português é tecnicamente fraco, visto que o título sempre é disputado por Benfica, Sporting e Porto. A chance de um clube português voltar a vencer a Champions League é pequena, mas nem por isso as pessoas se interessam menos por futebol. Tive a oportunidade de acompanhar jogos em Portugal, Espanha, Itália e República Tcheca. Sem dúvida, a partida entre Slavia Praga e Genk da Bélgica, pela Liga Europa, foi uma das mais fracas que já assisti na vida.

Quem seria campeão do ‘Portuguesão’, caso Grêmio e Inter estivessem na disputa?

Hoje o Grêmio está mais pronto que o do Inter. Inclusive, é possível que o Grêmio seja melhor que o Porto, que hoje disputa as oitavas-de-final da Champions e que até o final de semana passado liderava o Campeonato Português (perdeu a liderança para o Benfica no último sábado). Entretanto, como bom colorado, sempre aposto na mística da camisa vermelha. O Internacional também teria condições de se sagrar campeão português. Aliás, torcedores do Internacional e do Grêmio podem ter orgulho dos seus clubes: somos conhecidos na Europa por nossos feitos e pelos jogadores que revelamos e não devemos nada para ninguém em termos de tamanho. Somos gigantes!

Que dica o Sr daria para quem quer buscar experiências internacionais e não o faz por medo, comodismo ou falta de recursos? No seu caso, como viabilizou financeiramente a viagem?

Estudar e viver no exterior não é um bicho de sete cabeças, mas é preciso planejamento e capacidade de lidar com uma nova cultura. É importante sempre ter presente que você está em outro país, que tem sua cultura e questões. Portugal tem a facilidade da língua, mas eventualmente pode ser muito diferente do Brasil em termos culturais. A vida passa mais devagar e as pessoas seguem esse ritmo. O custo de vida em Portugal se assemelha ao do Brasil, exceto na moradia, que em Portugal é bem mais cara. No meu caso, o custeio foi realizado com recursos próprios. Devido ao contingenciamento orçamentário dos órgãos de fomento à pesquisa não obtive bolsa ou qualquer subsídio.

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