O silêncio dos corredores causado pelo recesso escolar chegou ao fim esta semana na URI. O calendário letivo da educação básica iniciou na segunda-feira (18) e hoje (20) recomeçam as aulas dos cursos de graduação. Para falar a respeito, o Bom Dia entrevistou o diretor geral da instituição, Paulo Roberto Giollo.
O bate papo, no entanto, foi além da simples retomada das sinetas naquela que é uma das instituições de ensino mais tradicionais do Norte do RS. Durante cerca de 1h30min, o administrador, contador e professor Giollo abriu seu coração - quando quase foi às lágrimas ao falar do prazer de manter-se em contato com os alunos nas cadeiras de Contabilidade 1 e 2. "Até hoje me emociono em sala de aula", diz ele - ao sustentar que a proximidade educador e aluno deverá prosperar, mesmo diante das novas tecnologias. Como bom contador, Giollo também falou de números, projeções e os desafios que a URI precisa vencer na era da educação 3.0. A seguir, confira os principais trechos da conversa:
Quais as expectativas para o retorno das aulas na Escola de Educação Básica?
O calendário escolar na educação básica começou com atividades de integração. Agora os estudantes já estão com as aulas regularizadas e seguindo os conteúdos. A escola tem apostado muito em transcender os limites da educação tradicional, incluindo conteúdos mais diversos, como o ensino do judô, dança, música. Em relação ao inglês, a ideia é que o estudante conclua o ensino médio fluente na língua. Acreditamos que desenvolver uma segunda linguagem ao longo da educação básica é vital, sendo bom para os alunos e também às famílias, que não precisam buscar tal complementação em outra em outra instituição.
Com relação a proposta do "novo ensino médio", de que modo a escola está se preparando?
Ainda estamos estudando e não decidimos como será feito. Contudo, particularmente, acredito que o ensino, em todas as áreas, será nossa prioridade, pois buscamos preparar os estudantes para a vida. Então, a formação deve ser completa, desenvolvendo diversas habilidades. Esse é nosso principal diferencial. Há vários anos nos destacamos entre as 20 melhores escolas do Estado no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). E observo esse dado como algo natural, ou seja, não é planejado, "vamos ser os melhores", mas resultado do trabalho, priorizando a integração, respeito e princípios.
Na graduação, como foi planejada a recepção para os acadêmicos?
Iniciamos o ano letivo com recepção aos estudantes, especialmente para os ingressantes no ensino superior. O calendário acadêmico começa hoje com uma palestra de motivação, destacando as oportunidades e perspectivas profissionais, bem como os pontos positivos de estar em uma instituição de ensino e do convívio com os colegas. Ainda, o Diretório Central dos Estudantes (DCE) vai promover uma gincana de integração entre os acadêmicos dos primeiros e segundos anos. Esperamos que essas atividades tenham sucesso, considerando que é o momento de transição entre o ensino médio o superior e recebendo o aluno da melhor maneira, esse período não será doloroso para que ele possa se sentir em "casa".
Comente as possibilidades de ingressos na URI para pessoas com baixa renda familiar, tais como financiamentos estudantis e o Prouni.
A URI oferece várias oportunidades de ingresso. Participamos de programas de financiamento como o Fies da Caixa - que está com os repasses confirmados, assim como a relação com o governo federal. No entanto, as matrículas com essa modalidade estão diminuindo em função das dinâmicas da esfera política e percebemos que o programa está perdendo espaço. A universidade também possui o CrediURI, com possibilidades de financiamento de até 50% das mensalidades, de acordo com a faixa de renda do grupo familiar. Com ele, o acadêmico pode quitar os valores em até o dobro do tempo da graduação, sem juros, apenas com a correção das próprias mensalidades. Outra possibilidade é o Programa Universidade para Todos (Prouni), também do governo federal, que oportuniza bolsas integrais ou parciais. No entanto, assim como o Fies, é uma seleção independente do nosso vestibular e possui alguns requisitos que avaliam renda familiar e trajetória escolar. Por exemplo, o estudante só pode concorrer se cursou a educação básica na rede pública ou com bolsa integral nas escolas particulares. O que para mim pode ser injusto, pois, às vezes, o pai realiza um esforço a mais para direcionar parte de sua renda à escolarização do filho na formação básica - excluindo famílias que precisariam de apoio na hora do ensino superior.
Considerando que és contador. O futuro da URI passa pelos números ou pela geração de conhecimento na era da tecnologia, dos dados e da criatividade?
Passa pelos dois caminhos. Temos que ter viabilidade financeira e cuidado com o orçamento, pois a economia do País ainda está em dificuldades. Mas, nosso futuro também passa por alterarmos a forma da educação. Não há como fugir disso. Vejo, porém, que não será algo que vai acontecer do dia para a noite, muito menos que as instituições tradicionais irão desaparecer. Precisamos nos adaptar à nova geração, seus meios de acesso ao conhecimento, aprendizado e, principalmente, a forma de agir em sala de aula. Temos que fazer com que o aluno realmente participe mais. Que ele queira participar mais. Nas aulas expositivas, por exemplo, pesquisas indicam que o batimento cardíaco do estudante, em sala de aula, equivale ao de quem está dormindo.
E alguns pagam caro pela "soneca", aliás. Mas, como inverter esta lógica?
Via tecnologia, claro, mas também pela forma de interação do professor. Estamos trabalhando nisso, com capacitações, palestras e discussões.
Em 2019, a URI abriu um novo campo: o ensino a distância, a partir da oferta de 20 cursos on-line e um semipresencial (Biomedicina). Como está a procura? E qual o objetivo da instituição com essa iniciativa?
A procura está boa considerando que começamos a divulgação um pouco tarde, no fim de novembro, próximo às férias coletivas. Hoje, devemos ter cerca de 400 estudantes já matriculados. A meta é chegar a 800 até o fim de 2019. A abertura do EaD nasceu de uma leitura do mercado pela qual entendemos que nossa instituição, com quase 50 anos de tradição, deveria integrar este novo momento, oferecendo a estrutura que a URI tem também a este público. Vale ressaltar ainda, que o perfil do aluno EaD é diferente do estudante que opta por cursos presenciais.
Quais seriam as principais diferenças?
Os alunos do EaD, na média, estão na faixa dos 24, 25 anos que querem dar "um salto" na carreira, inclusive aqueles que já possuem graduação. Já o aluno do presencial, em regra, sai direto do ensino médio e vai para a Universidade.
O senhor imagina que o EaD possa colocar em risco o ensino presencial?
O futuro, creio, será híbrido. Um exemplo disso é que estamos fazendo com a Biomedicina - com aulas teóricas a distância e aulas práticas presenciais.
Isso deve valer para todos os cursos?
Sim.
Este futuro híbrido chegará em quanto tempo?
De cinco a 10 anos, acredito.
Peter Drucker disse há algum tempo que em 30 anos os grandes campi universitários se tornariam relíquias. Hoje, já vemos gigantes como Google e Facebook contratando pessoas por habilidades e não pelos diplomas. Qual sua opinião a respeito? Drucker está certo?
Creio que vamos reduzir o tamanho físico das universidades, mas a interação seguirá via Internet e demais sistemas disponíveis. Penso que as instituições devem ampliar seu alcance, mesmo com diminuição na estrutura física.
Seguimos nesta linha. Como a URI encara a perspectiva da educação 3.0 (mais colaborativa, tecnológica e analítica) e o ensino por habilidades?
Nosso curso de Medicina já está se voltando para isso. Na realidade, é um caminho que teremos que seguir. Mas, antes, precisamos reconstruir nossos conceitos e cursos. A reitoria da URI começa a discutir a implantação em todos os currículos desta mudança de paradigma, até por que é uma exigência do MEC, considerando as futuras avaliações.
Sob esta perspectiva, o professor deve se transformar, digamos, numa espécie de tutor?
Não diria que a ruptura será tão grande. Vejo que o professor seguirá sendo professor, mas também um pouco orientador e, sim, também um pouco tutor. Independente disso, devemos estar adaptados ao novo momento.
Voltou-se a discutir o ensino em casa? Qual sua opinião a respeito?
Acho que é válido. A única preocupação que tenho é como "cobrar" isso. Que não seja um faz de conta.
O senhor não teme que a URI possa perder alunos se a "moda pegar"?
Tenho que atrair alunos não por uma exigência legal, mas pelo nosso diferencial. Por nossa qualidade.
Durante quatro semanas, em série de reportagens especiais, o Bom Dia tratou do tema 'Cidades Inteligentes', no qual as universidades desempenham importante papel. Em sua opinião, de que modo a URI pode contribuir no processo em Erechim?
Temos bons cérebros que poderiam se integrar à proposta - fazendo com que deixássemos, aliás, de perder ótimos profissionais para outros lugares. Mas, antes, acredito que, como cidade, deveríamos nos integrar mais. A URI poderia colaborar neste sentido - aproximando atores, comunidade e empresas. Precisamos pensar juntos. Veja só: trabalhamos em todos os planejamentos estratégicos, mas quanto efetivamente a gente construiu daquilo que foi pensado? Talvez a comparação não seja exata, mas por que Passo Fundo e Chapecó, considerando suas realidades, cresceram mais do que nós num determinado período de tempo? Minha resposta caminharia pela incapacidade que temos em pensarmos, trabalharmos e fazermos as coisas juntos.
Estudo da Organização Mundial do Trabalho indica que 65% das crianças que estão no primário irão trabalhar em uma profissão que ainda não existe e em empresas que sequer foram criadas. Como a URI observa este cenário?
Penso que o percentual não é tão alarmante. Todavia, concordo que o quadro indica mudanças que avançarão gradualmente, e a instituição terá se adaptar a elas. Em relação à percepção do cenário, digo com tranquilidade que a URI está preparando os estudantes para a vida. Desta forma, independente da profissão, a ideia é que eles tenham sucesso naquilo que escolherem - mesmo que esta ou aquela profissão ainda precisem ser criadas.
| Saiba mais sobre a URI Erechim Total de alunos: 4.500 Demais diretores: Acadêmico: Adilson Luís Stankiewicz Administrativo: Paulo José Sponchiado. Áreas físicas: Câmpus I, próximo ao acesso principal da cidade, em um terreno de 142.356,53 m²; Câmpus II, com 508.000 m² de área, localizado junto a BR 331; e URICEPP - Centro de Estágios e Práticas Profissionais, em um terreno de 1.800 m², a 400 metros do Câmpus I. Juntos, os três espaços totalizam uma área construída de 44.775,03 m². # A URI/Erechim oferece 25 cursos de graduação; mestrados de Ecologia e Engenharia de Alimentos; doutorado em Engenharia de Alimentos; além da Escola de Educação Básica, Centro de Línguas e vários cursos de especialização. |