21°C
Erechim,RS
Previsão completa
0°C
Erechim,RS
Previsão completa

Geral

Erechim está pronta para lidar com o envelhecimento da população?

Lideranças da área da saúde revelam ações e projetos para um futuro mais grisalho

teste
Idosos associados da ADAU se exercitam na academia ao ar livre do Parque Longines, em Erechim. Dizer
Por Salus Loch
Foto Salus Loch

Em pouco mais de uma década, o número de brasileiros acima dos 60 anos deverá crescer 45%, chegando a 42 milhões de pessoas, o equivalente a 19% da população total do país (em 2010, os 29 milhões de idosos correspondiam a apenas 8%).

Com isso, em 2030, o Brasil terá pela primeira vez mais gente além dos 60 do que crianças de até 14 anos. Tal condição - somada aos avanços tecnológicos e ao aumento geral dos custos da medicina - tem deixado o setor de saúde inquieto, colocando mais pressão num sistema já sobrecarregado.

Assentando Erechim neste mapa, o Bom Dia ouviu alguns dos principais protagonistas da área de saúde no município – secretaria de Saúde, hospitais e cooperativas - a fim de identificar as medidas que cada um está tomando diante de um cenário, digamos, mais grisalho.

Além disso, o jornal também entrevistou a dentista erechinense e pesquisadora associada da Universidade Nacional de Cingapura, Juliana Colpani – que dá sua opinião a respeito do funcionamento do modelo no país asiático.

Quadro geral

Apesar de avanços pontuais e importantes na área da medicina trazidos pelas novas tecnologias, o quadro de desigualdade que varre o Brasil – o 10º país mais desigual do mundo, segundo a ONU – atinge de forma brutal a saúde.

Quem mais sofre?

Os pobres (de todas as idades), que dependem do serviço público. Entre os principais entraves no setor estão a demora no atendimento, falta de equipamentos, médicos e medicamentos, além da má administração do setor (e, claro, casos de corrupção e desvios).

Na esfera privada, o panorama também preocupa, especialmente sob o ponto de vista do envelhecimento populacional. Conforme levantamento do Instituto de Estudos em Saúde Suplementar (centro de pesquisa mantido pelas operadoras privadas), com a longevidade, o número de internações, exames e consultas de idosos tende a crescer mais de 50% nos planos de saúde até 2030 – empurrando o modelo atual de assistência à beira do abismo. Logo ali na frente, projeta a Agência Nacional de Saúde, de cada R$ 100 arrecadados, 85 irão para o pagamento de despesas com o atendimento a pacientes.

 

Prefeitura aposta na estratégia de saúde da família

As 18 equipes do programa de estratégia de saúde da família da prefeitura de Erechim atendem a 52% da população. São médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e agentes de saúde que têm a atribuição de acompanhar, em caráter ‘primário’, o dia-a-dia dos pacientes, a fim de prevenir doenças e estimular hábitos saudáveis.

Segundo o secretário de Saúde, Dércio Nonemacher (MDB), a proposta é consolidar os programas já existentes antes de dar a largada a novas iniciativas. ‘Nosso foco é melhorar a produtividade das atuais equipes’, frisa Dércio – que mira, especialmente, o trabalho dos 93 agentes de saúde. Para tanto, estão sendo adquiridos tablets que deverão auxiliar no serviço destes profissionais, bem como no controle e qualidade das visitas realizadas. ‘A prevenção, a partir do acompanhamento cuidadoso do cotidiano das pessoas, promove a saúde, permite uma melhor qualidade de vida e reduz os gastos tanto públicos quanto privados com remédios e outros procedimentos’, destaca Nonemacher.

O secretário, que também é médico, observa, no entanto, que é preciso resolver a questão do saneamento básico de Erechim. ‘Não ter um metro cúbico de esgoto tratado na cidade é prejudicial aos trabalhos na área de saúde – o que facilita a disseminação de doenças e torna sistema mais custoso’, diz.  Academias de saúde nas praças e programas que cuidam da hipertensão, diabetes, câncer (Outubro Rosa, Novembro Azul) também são apostas da administração para o prolongamento da vida dos erechinenses.

 

Ações e olhares das instituições de saúde

Santa Terezinha

O diretor executivo do Hospital Santa Terezinha, Hélio Bianchi, observa que o envelhecimento da população apresenta novas demandas aos gestores, consequência das mudanças do perfil epidemiológico – que pedem diferentes arranjos intra e intersetoriais. Conforme Hélio, o Santa Terezinha, ao integrar a rede pública, tem como função específica o diagnóstico e internações de curta duração, enquanto as políticas voltadas ao idoso competem à atenção básica. ‘O Hospital é um elo da rede, devendo ser acionado quando houver a necessidade de internação por um curto período – prezando, nesses casos, por questões como acessibilidade, conforto e segurança do paciente’, reforça.

 

Hospital de Caridade

Já o Hospital de Caridade de Erechim trabalha com a perspectiva de ampliar o atendimento a pacientes crônicos (consequência do aumento da expectativa de vida). Ao mesmo tempo, o HC, entidade de caráter filantrópico e sem fins lucrativos, está concluindo estudo para decidir quanto a instalação de leitos de cuidados paliativos, que terão como foco a qualidade do tratamento diante doenças que ameaçam a continuidade da vida. ‘Temos estrutura, conhecimento e equipes que prezam o cuidado. Estamos finalizando estudo para investimentos na área de cuidados paliativos – o que deve ser um diferencial importante a partir do tratamento de pacientes do Norte do Estado’.

 

Unimed Erechim

A cooperativa integra o grupo de instituições parceiras do Projeto Idoso Bem Cuidado, desenvolvido pela ANS. A iniciativa visa a implementação de medidas que propiciem o envelhecimento saudável e ativo. No trabalho, os participantes (beneficiários acima de 65 anos) são direcionados a grupos de atenção e avaliados por equipe multiprofissional, composta por médico, enfermeiro, nutricionista, educador físico e fisioterapeuta. De acordo com o presidente Alcides Mandelli Stumpf, a consequência desta e de outras ações é uma melhor qualidade de vida. Stumpf frisa, ainda, que o acompanhamento ativo permite identificar eventuais riscos e ocorrências, minimizando seus impactos. ‘Gastando menos com a doença, o beneficiário, automaticamente, paga menos (no valor do plano) e vive melhor’, resume o presidente. Para ele, o que se quer é garantir mais autonomia e que a pessoa não seja acometida por doenças, mas caso seja, tenha condições de enfrentá-la ciente dos cuidados necessários.

Em 2018, a Unimed também proporcionou, de forma gratuita, o Curso de Cuidadores de Idosos, por meio de parceria entre a Federação Unimed/RS, Instituto Unimed/RS, Fundação Unimed e Unimed do Brasil.

 

Seis dicas para um envelhecimento saudável

# Prática regular de atividade física

# Dieta equilibrada livre de gorduras saturadas e pouco sal

# Sono de boa qualidade

# Controle de doenças crônicas (Diabetes, hipertensão e outras)

# Controle do estresse

# Rotina de exames e consultas preventivas

----------------

Você sabia?

# O custo do atendimento hospitalar de quem tem mais de 60 anos é o dobro do registrado para outras faixas etárias. Fonte: Instituto Coalizão Saúde.

# Em 2050, estima-se que 29% da população brasileira seja composta por pessoas com mais de 60 anos. Em 1950, este público representava 4%.

---------------------------

Erechinense avalia sistema em Cingapura

A empresa de análise financeira Bloomberg escolheu a medicina de Cingapura como a de melhor custo-benefício em 55 países. A conquista, diz o estudo, se dá por uma conjugação de fatores que envolvem a divisão dos custos com a sociedade (até 9% do salário dos cingapurianos é recolhido numa poupança para gastos médicos, sendo que cada cidadão paga uma fatia de seus tratamentos), forte regulação e o estímulo/cobrança de uma postura saudável. Com isso, entre 1965 e 2016, a expectativa de vida por lá saltou de 65 para 83 anos (uma das maiores do mundo).

A erechinense Juliana Colpani, dentista e professora na Universidade Nacional de Cingapura – que mora há quase sete anos no país, avalia o modelo.

Segundo ela, a infraestrutura de saúde consiste em instalações públicas e privadas, sendo que ambas oferecem alta qualidade de atendimento médico em diferentes níveis de serviço e conforto. ‘Planos de saúde, seguros privados e benefícios variam amplamente e dependem tipicamente do status de imigração e do empregador. Cidadãos cingapurianos e residentes permanentes têm direito a serviços subsidiados de saúde do governo via regime de poupança nacional obrigatória”, explica.

Falando sobre os estrangeiros, ela lembra que é preciso levar em conta que existem inúmeros tipos de ‘passes de trabalho’ – cada qual diferente em relação à cobertura de saúde. ‘Não é obrigatório que os empregadores em Cingapura forneçam benefícios de seguro de saúde. Como regra geral, quanto maior a empresa, maior a probabilidade de que ofereça algum tipo de benefício de seguro de saúde aos funcionários. No meu caso, tudo funciona muito bem porque eu e o meu marido trabalhamos na Universidade Nacional’, completa.

Sobre a saúde pública, os cidadãos/ residentes permanentes têm direito a serviços de saúde subsidiados prestados através de instalações de saúde do governo. Dependendo de vários fatores, o montante do subsídio pode variar de 50% a 80%. ‘Ajuda no co-pagamento do saldo da conta médica é permitida através de um esquema de poupança compulsória chamado Central Providence Fund (CPF)’, reforça a dentista, que arremata: “Dependendo da idade e renda, uma % do salário mensal de um empregado é contribuída para o CPF. Diferentemente do Brasil, aqui não existe SUS. Nada sai totalmente de graça”, revela.

 

Universidade Nacional

O sistema de saúde de Cingapura, diz Colpani, depende muito de instituições como a Universidade Nacional. ‘Em minha opinião, o que mais traz as pessoas para o hospital diariamente são as doenças crônicas, como diabetes, hipertensão, insuficiência hepática. Nem aqui, as instituições estão conseguindo lidar com os problemas crônicos de saúde de forma eficaz’, aponta. Conforme ela, os efeitos são evidenciados pela falta de opções de cuidados a longo prazo, crise de cama nos hospitais e cuidados prolongados dispendiosos. No âmbito nacional e geral, porém, o sistema de saúde em Cingapura funciona, sustenta a erechinense. ‘Todos os protocolos e registros são interligados, o que facilita e agiliza os tratamentos. Lembrando que estamos falando de um país que há 53 nos era considerado um dos mais pobres da Ásia. Acho que isso torna tudo ainda mais impressionante!’, finaliza.

--------------------------

Reforma da Previdência, o que deve vir por aí?

Com o envelhecimento da população, o déficit fiscal e a pressão do ‘mercado’, a prioridade do governo Bolsonaro é aprovar a reforma da Previdência. Nesta semana, veículos de comunicação anteciparam parte do projeto que a equipe econômica está elaborando. A seguir o Bom Dia reproduz os principais trechos da proposta.

# Proposição de idade mínima de aposentadoria de 65 anos para homens e mulheres, sem distinção por gênero - prevendo para todos os trabalhadores tempo de contribuição de 40 anos a fim do recebimento do benefício integral.

# Endurecimento das regras de aposentadoria para trabalhadores do setor privado durante a fase de transição. Atualmente, é necessário cumprir a regra 86/96 pontos, somando idade e tempo de contribuição, para ter acesso ao benefício integral. A partir de 2020, seria acrescentado um ponto a cada ano para homens e mulheres até atingir 105 pontos nos dois casos.

# O texto prevê elevar o tempo mínimo de contribuição dos atuais 15 para 20 anos e altera o valor da aposentadoria no setor privado. Quem quiser se aposentar com o tempo mínimo de 20 anos receberá 60% da média salarial. Para cada ano que permanecer na ativa, haverá acréscimo de 2 pontos percentuais, até os 100%.

# O BPC (para pessoas carentes) seria fixado em R$ 1 mil. O critério de acesso permaneceria o mesmo: ser de família onde a renda por pessoa não ultrapasse 25% do salário mínimo. A regra proíbe a acumulação com outros benefícios.

# A proposta também cria o regime de capitalização (obrigatório). Por ele, cada trabalhador contribuiria para sua própria aposentadoria, diferentemente do sistema atual, de repartição (os ativos recolhem para um bolo que é dividido entre aposentados e pensionistas). O texto destaca que o valor do benefício dependeria do rendimento das aplicações, sendo permitido usar parte do saldo da conta do FGTS.

Leia também

Publicidade

Blog dos Colunistas

;