Pontualmente, como combinado, o erechinense David de Oliveira, 35 anos, chegou na redação do Jornal Bom Dia nesta sexta-feira de manhã. Ele esperava minha colega, que tinha combinado a entrevista, mas logo disse que era eu quem iria fazer a matéria e ficou tudo bem. O convidei para entrar na sala ao lado da redação, ele pegou sua maleta de trabalho com o seu rádio, se sentamos, e conversamos durante quase meia hora. Muito calmo e educado, ouvia as perguntas e respondia com serenidade, quanto mais falava, outro mundo se apresentava a mim, ali na mesa do jornal. E, assim, conheci um pouco da sua história que relato a seguir.
David procura todo dia um lugar bem fechado para dormir, mesmo assim é difícil descansar. Levanta às sete horas da manhã para ir trabalhar. Se tem dinheiro compra alguma coisa para comer, senão vai assim mesmo atrás do seu sustento. Passa na loja ou na casa de amigos para pegar as suas ferramentas de trabalho. Aí o leitor franze o cenho, fica encucado e se pergunta por quê? Alguma coisa não está de acordo. Com razão, já que David é morador de rua e há dois anos está nessa situação, mas luta todo dia, da manhã à noite, para reconstruir a sua vida.
“Viver na rua é complicado, se passa muito perigo. A gente tem que se cuidar, dorme com um olho aberto e outro fechado. Tenho amigos nas lojas, ponto de taxi, que guardam a caixa para mim para não roubarem. Durmo só com a roupa do corpo”, comenta.
David está tentando recomeçar a vida como engraxate, profissão que exercia quando adolescente, passa o dia inteiro caminhando nas ruas centrais de Erechim a procura de clientes.
“Não tenho filhos, não tenho casa e moro na rua. Tomo banho no albergue, troco de roupa, faço a barba e volto pro serviço. Tem que trabalhar limpo, a gente só trabalha sujo quando está em obra. Estou trabalhando na rua, com clientes, então tem que andar limpo”, observa.
David trabalhou como engraxate há uns 30 anos atrás, quando era adolescente, apesar do tempo, afirma que ainda sabe bem fazer o serviço. “Não tenho freguês fixo, ontem fiz quatro graxas e deu para tirar R$20, isso deu para se alimentar” conta.
O engraxate me responde que não é sozinho, tem seis irmãos, ele é o mais velho dos homens. “Tenho irmãos, mas eles não têm como me ajudar, também tem a família e a vida deles. Não tem espaço para mim na casa deles. Meu pai mora em Tapejara, com outra irmã, é velhinho. A minha irmã é mais velha. Minha mãe está pelas bandas de Getúlio Vargas”, observa.
David vive uma situação extrema e, mesmo assim, não desiste, luta, trabalha para mudar essa realidade. “Mas optei em trabalhar e fazer a coisa certa. Tem que achar um meio de sobreviver”. Ele afirma que a reciclagem estava difícil, “não estava dando muito”. E acrescenta, “o padre da Catedral resolveu falar com o marceneiro dele e fazer uma caixinha para mim para ganhar a vida”.
“Trabalho para me alimentar, viver o dia a dia, para sobreviver. Deixo as coisas com amigos que guardam para mim, quando tenho tempo vou ao albergue lavar as minhas roupas. Deixo estendido e depois vou lá recolher”, afirma.
Segundo David, hoje tem ele e outro engraxate que trabalha na rua em Erechim, ele fica caminhando nas avenidas centrais atrás dos clientes, pergunta se querem engraxar. “Estou trabalhando com dois tipos de pastas, marrom e preta, assim que eu melhorar e ter um dinheirinho vou comprar incolor, branca, para ficar na frente dos hospitais. A pasta em latinha está na base de R$8 a R$10, se for a líquida é mais cara”, explica.
O que precisa para fazer um boa engraxada, salienta David, ele leva na sua caixa, as pastas, as escovas marrom e preta para dar brilho, panos para lustrar e panos para passar a graxa. “Levo um radinho junto para colocar uma música para o cliente escutar, bem baixinho”, observa.
O engraxate salienta que o pano de seda é o melhor para dar brilho, não tira a pasta do sapato, além de lustrar e dar brilho. O pano de algodão tira um pouco da pasta e “aí não dá aquele brilho total”. “Se o cliente gostar faço um sambinha, estratégia usada para ganhar uma gorjeta a mais. Cobro R$5 a engraxada”, afirma.
Se o estado do calcado for meio crítico, demora cerca de 20 minutos para deixa-lo pronto. E se o sapato estiver em bom estado leva em torno de 10 a 15 minutos para engraxar.
“As pessoas não me conhecem, ainda estão me conhecendo, mas acredito que devagarinho vai dar certo. Tenho cliente nas lojas e outro cliente da farmácia no sábado”, diz.
Mudar de vida
David lembra que já teve família, mas não deu certo e acabou indo para a vida. “Quero sair dessa vida, com certeza, não quero ficar para sempre na rua engraxando sapato, quero arrumar um emprego. Fui no Sine, em muitas entrevistas de emprego. Nas entrevistas perguntam onde eu moro, eu falo que moro na rua. Assinava a entrevista e mandavam para o Sine de volta”, destaca.
Ele faz um desabafo e acha que isso é preconceito do empresário em “não abrir a mão para aquela pessoa que está necessitando realmente de emprego. Não tenho escolaridade alta, mas qualquer empresa que eu for tenho vontade de aprender. Vou me esforçar. Quero ter meu salário, ter como pagar um aluguel, ter um lugar para ficar e sair dessa vida”, salienta.
David enfatiza que já trabalhou em construção civil, chapeação e pintura, como auxiliar de mecânico, carga e descarga de logística, em muitas coisas. “Hoje, se me dessem oportunidade com certeza vou me esforçar e ser um bom trabalhador”, afirma.
“Não reclamo da vida e agradeço a Deus, todo dia, por estar vivo. É importante agradecer a Deus por estar vivo e ter saúde”, salienta. Ele diz que é católico e vai na missa nos domingos e sábados.