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“Me sinto feliz aqui dentro”

O alfaiate Luiz Rigoni, aos quase 94 anos está a 77 anos trabalhando e fazendo o que mais gosta: produzir de forma artesanal ternos. A profissão, que pode desaparecer, proporcionou a ele condições para cuidar da sua família, um sentido de vida e muitas felicidades

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Alfaiate Luiz Rigoni
Um dos ternos que está sendo feito por ele
A tesoura que seu pai aprendeu a trabalhar
O quadro de 1933 com os figurinos
Luiz mostra as ferramentas de seu ofício
A trena fiel companheira
Por Ígor Dalla Rosa Müller
Foto Ígor Dalla Rosa Müller

Passo a passo, devagarzinho, como ele mesmo diz, o alfaiate Luiz Rigoni sai de sua casa a pé e segue para o seu trabalho no centro de Erechim. Nada demais se não fosse pela idade de Luiz que completa em dezembro 94 anos e há 77 anos produz de forma artesanal, manualmente, ternos. Segundo Luiz, ser alfaiate lhe proporcionou condições para cuidar da sua família, um sentido de vida e muitas felicidades.

Cheguei sem avisar à sua alfaiataria, na manhã de ontem, localizada na avenida Sete de Setembro em Erechim (RS) e fui muito bem recebido pelo senhor Luiz, que estava sentado atrás da sua máquina de costura alemã PFAFF de 80 anos. De imediato começamos a conversar sobre trabalho, vida, um pouco de tudo. “Devagarzinho ainda faço roupas, todo dia acordo e vou a pé às sete e meia para a alfaiataria. Nunca aprendi dirigir auto, nem bicicleta”, afirma. Mas isso não o impediu de trabalhar e ter uma vida normal.  

Ele explica que é natural de Nova Pádua, interior de Caxias do Sul, e veio para Erechim com três anos de idade. Seu pai Carlos Rigoni era alfaiate, fazia terno, roupas, tudo, e ensinou a profissão a ele. “Meu pai me ensinou a ser alfaiate e trabalhar nessa profissão, mas sempre gostei. Não fui para o quartel, fiz o tiro de guerra aqui com 17 anos, quando terminei, comecei a trabalhar com meu pai e desde lá nunca parei”, comenta.

A Alfaiataria Rigoni fica na parte térrea da casa da sua família, no mesmo local em que sua família morou e seu pai trabalhou durante toda a sua vida. Luiz se casou e teve quatro filhos. Tem netos e bisnetos. Sua esposa faleceu há 16 anos.  

Conforme Luiz, a disposição para trabalhar vem da sua motivação de viver e “servir bem os fregueses”. E, acrescenta, “me sinto feliz aqui dentro, me sinto bem”.

Luiz mostra uma das máquinas de costura com 80 anos de fabricação, é uma alemã PFAFF. E, brincando comenta que a sigla quer dizer “Para Fazer a Felicidade Familiar”, e ao contrário, “Faça Força a Fazer Pagamento”. A máquina é original, de pedal, não é elétrica, e também foi utilizada pelo seu pai. “Sempre trabalhei com máquinas de pedal”, observa.

Aos quase 94 anos, o alfaiate trabalha normalmente e faz paletós, calças, coletes, sobretudo e japona. “Só roupas de homem. Faço o trabalho normal, esse é um paletó que estou fazendo, esperando o freguês vir provar”, afirma, e mostra parte da roupa sendo costurada.   

Em cima do balcão está exposta a tesoura que seu pai Carlos Rigoni aprendeu a profissão de alfaiate. “Mandei niquelar”. Logo abaixo da tesoura tem uma placa que diz: “Com esta tesoura Carlos Rigoni aprendeu a profissão de alfaiate. Em 1927 mudou-se de Nova Pádua para Boa Vista de Erechim, onde fundou a Alfaiataria Rigoni, que ainda hoje funciona pelas mãos de um dos seus 11 filhos Luiz Rigoni”.

Logo ao lado está um quadro de 1933 com os figurinos que servem de modelo e acompanhou o trabalho de seu pai e o dele. “Não mudou muito de lá para cá o feitio é o mais ou menos o mesmo”, observa.

Segundo Luiz, o tergal e a microfibra são os tecidos normalmente utilizados para fazer um terno. “A casimira não existe mais, era um pano diferente fabricado no Brasil. Preferia a casimira para trabalhar”, comenta.

Alfaiates

Luiz lembra que Erechim chegou a ter 60 alfaiates. “A gente se reunia e fazia uma festa no Dia do Alfaiate. Hoje tem cinco alfaiates e todos velhos. Ninguém está mais aprendendo essa profissão, ela está se terminado, pelo menos aqui em Erechim. Acho que vai estacionar por aí”, observa.

Ele ressalta que é difícil formar pessoas novas na profissão, já que os jovens querem outras coisas. “No tempo que aprendi tinha que trabalhar dois anos de graça para aprender. Hoje ninguém trabalha de graça”.

Períodos

Seu Luiz que nasceu em 1924, lembra que vivenciou diferentes períodos políticos da história do país, mas não teve problemas. “Vivi tranquilo, trabalhando e cuidando da família”, comenta.

Bom terno

De modo geral o alfaiate realizou o trabalho com as mesmas ferramentas que seu pai usava, ferro de passar à brasa e depois elétrico, máquina de costura de pedal, as tesouras alemã pesadas, as réguas de madeira, as luvas para passar, alisar e abrir costuras e a trena de um metro e meio. 

Conforme Luiz, o segredo para fazer um bom terno é tirar as medidas certas do corpo do freguês. “Na base de 15 medidas um terno, comprimento das mangas, peito, cintura, comprimento da calça, joelho e depois coloco no caderno”, explica.

Em média um paletó leva dois dias para ser feito, 16 horas de trabalho, o colete leva meio dia e a calça um dia. “Para deixar pronto um conjunto é de três a quatro dias para mais” ressalta.

Um detalhe muito importante, que realmente impressiona, é que na máquina só é costurado a parte bruta da roupa, toda a confecção restante é costurada com agulha muito fina à mão. “Costuro com agulha e dedal, senão machuca a mão. Coloco a linha, aí preciso dos óculos”, observa.

Alimentação

Ele ressalta que é importante se alimentar bem, descansar e trabalhar. “Sempre fiz assim. No meu tempo gostava de jogar futebol”, lembra.

Modernidade

“Tudo hoje é moderno. Não sei usar computador, mas isso não fez diferença na minha vida”, salienta.

Avaliação

Quando pergunto qual sua avaliação sobre a vida Luiz responde: “Me sinto feliz, não fiquei rico, mas sustentei minha família, tenho minha casa e dei estudo para os quatro filhos que estão bem de vida”.

Ele afirma que aprendeu a viver conforme a regra que seu pai ensinou. “Viver com o que é nosso e não com o que é do vizinho. Ainda hoje sigo isso na minha vida e ensinei para os meus filhos”, destaca.

Para os jovens aconselha que procurem uma profissão que gostem. “Sempre gostei de ser alfaiate, isso é para mim importante, e até hoje me sinto feliz quando estou atrás da máquina”, ressalta.

Para ele, a realidade de hoje é muito crítica e mais difícil do que antes, tem mais recursos medicinais, “mas não salva a vida de ninguém”. “Para ter uma vida boa só preciso continuar como estou, que estou feliz”. E, acrescenta, “a vida não é fácil para minguem, precisa muito trabalho”, conclui.

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