Não tem como pensar a organização equilibrada da sociedade sem considerar a preservação do meio ambiente. Os recursos naturais são fundamentais para o desenvolvimento econômico e social, da mesma forma que o seu reaproveitamento depois de industrializados. A 17ª Semana Municipal do Meio Ambiente e 16º Fórum Regional do Meio Ambiente iniciou no dia de ontem com uma vasta programação voltada à natureza e o impacto do desenvolvimento. A abertura oficial do evento será na noite de hoje, às 19h, na Câmara de Vereadores de Erechim. A programação vai de 18 a 23 de junho.
ARCAN
Dentro desse espírito ecológico, o Jornal Bom Dia traz o exemplo da Associação dos Recicladores Cidadãos Amigos da Natureza (Arcan), que há anos se dedica à reciclagem e contribui muito com seu trabalho para o reaproveitamento de resíduos sólidos e, desta forma, para a preservação do meio ambiente.
Ao chegar na sede da Arcan, no bairro Progresso, em Erechim (RS), fui muito bem atendido pelo presidente da entidade. Ao primeiro sinal da minha presença, sem saber o que fazia ali, prontamente Paulo Roberto Gomes, 45 anos, que há seis anos atua na reciclagem, se desfez das luvas e com muita educação me atendeu. Para quem nunca viu um galpão de reciclagem, onde pessoas trabalham em meio ao lixo, a cena impressiona um pouco. No entanto, os recicladores trabalham como “máquinas”, sem piscar, focados em seu trabalho, preocupados em separar as toneladas de resíduos à sua frente.
Segundo o presidente da Arcan, Paulo Roberto Gomes, 45 anos, a associação tem hoje 20 pessoas que, diariamente, fazem o trabalho de seleção dos materiais que chegam à sede da entidade.
A Arcan está com muitas dificuldades, observa Paulo, já que reduziu significativamente o volume de resíduos em função dos carros particulares que estão recolhendo lixo na cidade, mesmo sendo proibido.
Conforme Paulo, essas pessoas que fazem o recolhimento por conta, além de reduzir muito a quantidade de resíduos que vai para a Arcan, selecionam o que tem mais valor. “Eles recolhem só o que é bom, PET, papelão, latinha de alumínio, e aí todo material que não presta, que seria rejeitado vem para cá, diminuindo bastante o valor comercial. Esse é o principal problema”, afirma. E, acrescenta, “a prefeitura deveria fiscalizar e proibir esse recolhimento”, destaca.
O presidente da Arcan enfatiza que essa situação está assim desde o começo do ano. “A lei foi aprovada faz uns cinco meses, já deveria ter entrado em vigor. Falamos com ele (secretário Meio Ambiente de Erechim) e até agora não estão proibindo nada, continuam recolhendo sempre o melhor e o que vem para nós tem pouco valor”, destaca.
Com essa situação o rendimento mensal diminuiu. Antes cada família tirava em torno de R$1 mil por mês. “Hoje, o rendimento caiu mais ou menos uns 40% por família, quase a metade, em função dessa situação que a prefeitura não resolve”, observa.
Cada família já chegou a tirar até R$ 1,5 mil por mês no verão, período que aumenta o consumo do PET, que tem mais valor para reciclagem. O resíduo de PET é vendido a R$ 1,7 o quilo.
Cada trabalhador doa um pouco dos seus recursos para manter em dia o pavilhão, mas em função da diminuição do rendimento está difícil de fazer a manutenção. Paulo faz um apelo para alguma empresa que possa ajudar nesse momento difícil.
“Dizer para as autoridades que deem um pouco mais de valor para nós, pelo nosso trabalho de reciclagem e a importância que temos. São famílias que trabalham e dependem disso. Aqui no pavilhão são 20 pessoas, que com suas famílias se tornam ainda mais”, enfatiza.
Reciclagem
Quando o material chega do caminhão é descarregado todo no chão no centro do galpão e cada dupla vai trabalhando ao redor do monte. Todo o trabalho é manual. “Nós encostamos as esteiras porque o valor da luz é muito alto”, comenta.
Paulo salienta que cada dupla seleciona o papelão, caixinha de leite (Tetra Pak), vidro, lata, PET, que é separado, prensado e vendido para fora. O plástico, por exemplo, vai para a cidade de Santa Cecília no Rio Grande do Sul. “Lá eles fazem limpeza do material e trituram para ir ao destino final”.
Separação
O presidente da entidade de reciclagem pede para a população que separe bem o seu resíduo diário para facilitar o trabalho dos recicladores. “O vidro tem que ser embalado numa caixa de leite para não cortar o pessoal que trabalha na reciclagem e nem com quem recolhe o lixo. Plástico, PET, papelão pode ser colocado tudo numa só sacola”, destaca. Hoje, tem várias empresas que doam material reciclável para a Arcan, que não tem condições de buscar, mas as doações são bem-vindas.
Semana do Meio Ambiente
Quando perguntei a ele sobre a Semana Municipal do Meio Ambiente, Paulo afirma que soube do evento pelos jornais e que a experiência da Arcan poderia ter sido aproveitada.
Programação
A mesa-redonda de abertura da Semana do Meio Ambiente tem como temática Erechim: O centenário das Transformações. O debate terá como participantes o historiador Enori Chiaparini, a arquiteta e urbanista Rosely Hachmann e a bióloga Elisabete Maria Zanin, mediado pela professora Sônia Zakrzevski.
A bióloga Elisabete Maria Zanin vai abordar a Dinâmica da Paisagem Urbana: a arborização em Erechim. A proposta tem como ideia central, apresentar de forma objetiva as mudanças na paisagem natural, desde antes da colonização até os dias atuais, enfatizando como foi sendo estabelecida a arborização na área urbana. Pretende, também, expor a importância da arborização para a qualidade de vida e ambiental, além dos desafios que se colocam para a próxima década.
O historiador Enori Chiaparini vai fazer um breve panorama do impacto da modernização na natureza, do desenvolvimento econômico e social na região Alto Uruguai, iniciando com a colonização em 1910 e os primeiros momentos de alteração do meio ambiente. O historiador cunhou o termo “Gritos de Alerta” para trazer exemplos locais de personagens que já tinham visão ecológica e preocupação com o futuro da cidade, mesmo em períodos de abundância.
A arquiteta e urbanista Rosely Hachmann vai falar sobre o planejamento urbano e o patrimônio histórico do município. Com a formação e o planejamento da cidade gera ainda hoje reflexos no desenvolvimento social, econômico e no bem-estar da população até hoje.