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Momento de conquista de espaço e reconhecimento

Em maioria no ensino superior, mulheres buscam inserção profissional e mudam relações pessoais e familiares

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Por Najaska Martins - najaska@jornalbomdia.com.br
Foto Najaska Martins

Em maioria no ensino superior, mulheres buscam inserção profissional e mudam relações pessoais e familiares

Elas são maioria no país, estudam mais, trabalham mais, porém, ainda recebem menos. O cenário apontado pela pesquisa “Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil”, divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam para um momento de reflexão sobre o papel feminino no âmbito da formação profissional e do mercado de trabalho.

Quando analisado o ensino superior, a realidade de Erechim se assemelha aos dados nacionais. Prova disso é que em duas das principais universidades da cidade, por exemplo, a participação feminina é maior em boa parte dos cursos e, quando analisado o total de estudantes, elas ultrapassam metade do público acadêmico. Este cenário tem reflexos também no mercado de trabalho, visto que ao passo em que buscam formação profissional e se inserem nas mais diferentes áreas, acabam mudando relações pessoais e familiares.

Protagonistas de novos espaços

Diretora acadêmica da URI, a professora Elisabete Maria Zanin comentou estes dados, salientando principalmente a procura das mulheres por cursos de áreas nas quais antes elas tinham pouca inserção. “Demograficamente as mulheres são maioria hoje e partindo desta premissa espera-se também que elas estejam em maior quantidade em diferentes segmentos, incluindo o ensino superior. Neste sentido, um aspecto vem chamando atenção e falo analisando especialmente a partir da década de 80, quando entrei na faculdade, é que até então elas buscavam formação e ocupavam mais cargos de determinadas áreas, como as licenciaturas, que eram predominantemente femininas além de outras formações ligados à arte e à economia doméstica, não se distanciando assim das tarefas que ao longo dos anos vinham sendo comumente destinadas a elas, ou seja, a de educar os filhos e a de cuidar da casa”, explica.

Entretanto, conforme Elisabete, a partir da década de 90 isso foi mudando quando elas passam a buscar cursos nos quais tradicionalmente tinham baixa inserção feminina, a exemplo de engenharias e cursos da área de ciências sociais aplicadas. “Hoje o que nós vemos é uma inversão desses dados, sendo que em alguns casos, mais de 80% dos estudantes são mulheres. Nas engenharias não se chega a isso, mas ainda assim é um número equivalente ao de homens ou talvez um pouco menor. Acredito que isso é resultado de uma busca que se iniciou lá atrás quando as mulheres passaram a reivindicar direitos e deveres iguais aos dos homens. Muito do que está acontecendo hoje vem se retratando como reflexo das primeiras discussões em torno da ocupação do espaço por parte das mulheres”, afirma.

Mudança no decorrer da história

Professora na Universidade Federal da Fronteira Sul, a historiadora Isabel Rosa Gritti fez um panorama sobre esta mudança nas perspectivas profissionais das mulheres ao longo dos anos especialmente no Brasil. “A inserção cada vez maior das mulheres no mercado de trabalho é visível. Isso decorre de vários fatores, entre eles, a luta longa e árdua das mulheres em busca de seus direitos e de igualdade; da mudança das representações sociais que contribuem para a configuração dessas desigualdades e fundamentalmente pela dinâmica do mundo do trabalho. A partir da Revolução Industrial e da I e II guerras mundiais, as mulheres por necessidade do capital para a execução de determinadas tarefas e pela necessidade de garantir sua sobrevivência são incluídas no mercado de trabalho, mas essa inclusão se dá num contexto de precarização das condições de trabalho. Aliada a essa precariedade das condições de inserção no mercado de trabalho, que poderíamos dizer, compõem os fatores negativos, encontramos aspectos positivos que se traduzem numa maior autonomia e liberdade das mulheres. No caso do Brasil, particularmente, a luta das mulheres possibilitou a conquista de políticas públicas à elas direcionadas. Essas conquistas se expressam, por exemplo, na criação da Secretaria Especial das Mulheres e na da Igualdade racial e de gênero, ambas com status de Ministério, o que dá maior visibilidade a luta e a participação das mulheres no mundo do trabalho”, pontua.

Sobre a mudança de paradigma de que mulheres não precisam se limitar às atividades domésticas, a historiadora avalia como uma conquista importante, porém, chama atenção ao fato de que não foram rupturas com a consequente construção de uma sociedade igualitária e, portanto, livre de discriminações e preconceitos. “Continuamos, assim como muitos outros grupos, sendo vítimas do preconceito e da discriminação. Isso se revela por exemplo, na participação maior de mulheres em algumas atividades consideradas de menor prestígio social, como a de trabalhos domésticos e no mercado informal”, afirma.

Na universidade onde atua – a UFFS de Erechim – as mulheres compõem 61% do total de estudantes, sendo minoria somente no curso de Agronomia. “São dados animadores e estão em consonância com os dados nacionais que indicam a maior escolarização das mulheres e maior número de mulheres do que de homens com formação universitária.  Eles também revelam a presença significativa das mulheres nos cursos de arquitetura, engenharia ambiental e agronomia. Temos uma participação de 54,56 % mulheres e 45,44% de homens, enquanto que nas licenciaturas as mulheres representam um percentual bem maior. Dos universitários elas correspondem a 65,95% e os homens correspondem a 34,05%. Isso tem possibilitado a conquista de postos de trabalho com maior remuneração e visibilidade. Porém, não tem garantido igualdade salarial e social”, avalia.

Novas dinâmicas sociais e o futuro da sociedade

Essa mudança nas perspectivas profissionais das mulheres, que a diretora acadêmica da URI define como gradativa e estrutural, acabou resultando também em novas dinâmicas sociais, com reflexos principalmente nas configurações familiares. “Naquele tempo tínhamos também uma dinâmica de sociedade diferente, onde a profissionalização era focada no homem enquanto a mulher era direcionada aos cuidados com o lar e à educação dos filhos. Essa tarefa era e ainda é indiscutivelmente importante, porém, as mulheres não se sentiam produtivas mesmo sendo altamente produtivas. Além disso, havia um descompasso de entendimento da sociedade, de que quem estava em casa, só estava em casa e que o trabalho do lar não tinha um valor econômico”, pondera.

Com essa ruptura e na busca por igualdade de reconhecimento, elas passam a ocupar novos espaços e desenvolver novas funções. “No decorrer dos anos as tarefas que antes eram de responsabilidade delas passaram a ganhar novos desenhos e hoje acredito que estamos diante de um novo questionamento e de novos desafios relacionados principalmente à educação das crianças. Os pais passaram a compartilhar desta responsabilidade de maneira mais efetiva do que antes, elas também passam a ter menos tempo para se dedicar a estas tarefas e com ambos estando mais tempo fora de casa, esta função vai sendo deixada para a escola e isso, num futuro próximo, terá sérios reflexos, pois afinal, quais as consequências para a formação da nova sociedade que teremos adiante? Como essa nova rotina, essas novas configurações familiares irão impactar no nosso futuro?”, questiona a diretora acadêmica da URI, Elisabete Zanin.

 

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