Coragem, confiança e persistência. Estas são algumas das características que definem a história de Aline Deparis enquanto empreendedora no mundo da tecnologia. Sócia fundadora da Maven - empresa de Porto Alegre responsável pelo desenvolvimento de tecnologias para publicação digital de conteúdo – a jovem se destaca em sua área, sendo uma das poucas mulheres a tomar frente em um meio ainda essencialmente masculino.
Sua trajetória na área em que atua contrasta fortemente com sua origem: natural de Viadutos, passou boa parte da infância e da adolescência na Linha Lambari, interior do município, onde seus pais, agricultores, ainda residem. “Se você perguntar aos meus pais com o que eu trabalho, certamente responderão: ‘a Aline trabalha com computador’, e não passará disso, pois a realidade deles em relação às tecnologias em que atuo, ainda é muito diferente da minha”, afirma ao destacar que surpreendeu a família ao decidir seguir carreira na área de TI, depois de abandonar o curso de Pedagogia, no qual cursava o sexto semestre. “Para eles foi uma surpresa muito grande e, ao mesmo tempo, uma decepção, pois eles projetavam que eu seria professora, tanto que cursei magistério em Viadutos, antes de iniciar a graduação em Pedagogia”, lembra.
Apesar de inicialmente seguir as expectativas dos pais, Aline lembra que desde cedo havia indícios de seu curvamento à tecnologia. “Eu sempre gostei desta área, causei inclusive alguns prejuízos aos meus pais, já que seguidamente desmontava equipamentos e objetos para entender como eles funcionavam. Estraguei várias fitas VHS, por exemplo, cheguei a desmontar uma plantadeira do meu pai para entender sua sistemática. Havia inclusive uma preocupação constante da parte deles de que eu desmontasse a única TV que nós tínhamos em casa”, conta ela, brincando com a situação. “Acho que talvez estivesse no meu DNA esse interesse por tecnologia e ele foi impulsionado ao passo que eu via o que estava acontecendo no mundo”, complementa.
Criação da Maven
Coragem. Esta é a palavra que resume a decisão de Aline ao se aventurar pela área de tecnologia. “Eu sabia que seria um passo ousado abandonar a graduação que eu cursava, mas ao mesmo tempo, eu sentia que aquela área não era para mim. Como futura pedagoga eu percebi que não estava conseguindo mais dar o meu melhor. Iniciei então meu curso de Análise de Sistemas na PUC, onde me encontrei”, pontua.
O passo inicial na empresa da qual é uma das fundadoras foi impulsionado vislumbrando o programa Prime - Primeira Empresa Inovadora, da Finep, em 2009. “Fiquei sabendo do prêmio e me interessei. Então procurei um amigo meu - hoje meu sócio - que já tinha pronta uma ideia embrionária de uma sistema para revista digital. Isto quando não se pensava muito neste tipo de tecnologia, apesar de já haver uma movimentação que mostrava a tendência de um público que estava deixando de consumir a notícia da forma como era consumida. Acabamos conseguindo trabalhar no projeto e naquela época a empresa ganhou R$ 120 mil para reinvestir nela. Fomos uma das poucas empresas a receber esse recurso e que até hoje permanece no mercado. São oito anos de história e sete de operação”, afirma, ao destacar que a Maven tem como clientes grandes nomes como empresas de comunicação nacionais, por exemplo.
Uma mulher em um meio dominado por homens
Integrante da diretoria da Associação das Empresas de Tecnologias do RS (Assespro), Aline é uma das poucas mulheres em posição de destaque em uma área majoritariamente masculina. “Acredito que eu seja a diretora mais jovem do grande grupo, que é formado por uma equipe prioritariamente masculina. É um desafio, pois sim, ainda há preconceito, embora ele venha diminuindo e seja cada vez mais sutil. Enquanto mulher, há ainda outros desafios, como conciliar a vida feminina com a de empreendedora”, pondera.
Com fortes relações com sua origem, Aline afirma que frequentemente retorna a Viadutos, onde encontra suas raízes. “Não mudei minha relação com o lugar onde eu vivia. Particularmente adoro tecnologia, adoro estar em grandes centros, mas sou apaixonada pela agricultura e manter as raízes me faz bem, além de ser muito saudável”, pondera, ao chamar atenção à mudança de paradigma em relação ao meio rural. “Vejo que o agricultor está cada vez mais interativo, munido de ferramentas digitais. Ele não é mais o caricato que estávamos acostumados, ele também tem acesso às tecnologias e ao mundo digital”.
De sua experiência, ela aconselha outras mulheres que buscam se aventurar na área. “Mais meninas do interior podem sim se aventurar e buscar seus sonhos. O espaço não precisa limitar, não importa onde esteja, o que vale é buscar o que se deseja e gosta. Algumas vezes a gente erra. Eu errei algumas vezes ao longo da minha trajetória, mas se dá a volta por cima. Mais mulheres precisam empreender, mais mulheres precisam estar à frente das mais diversas áreas. Independentemente se são filhas de agricultores ou de grandes empresários, elas têm que tomar coragem e se empoderar”, finaliza.