Expectativa e Realidade
Dizem que a expectativa é companheira da frustração. Em tempos ansiosos, é curioso que ainda criemos expectativas sobre as coisas da vida. Basta planejar algo que dependa de fatores aleatórios – como quase tudo hoje em dia - para que encontremos a experiência da realidade: frustrada.
Casamento
O casamento é uma daquelas situações em que as pessoas criam expectativas. Até o ano 2000, era comum que os casais celebrassem a união no civil e no religioso. Hoje, as uniões consensuais já superam as registradas. Economia de frustração. Por esse viés, podemos imaginar que os jovens de hoje têm menos expectativas do que os de outrora. No registro oficial e na religião. Aí está. A mulher casa esperando que o homem mude. O homem, por sua vez, casa esperando que a mulher não mude. O que acontece? Naturalmente, o contrário: as mulheres mudam e os homens não. É até engraçado. Ambos acabam frustrados com suas expectativas e quando termina o humor, o amor sai de cena.
Carro zero
Quem compra um carro novo também vive essa sensação. Até sair com o veículo da loja, é tudo alegria, euforia e encantamento. Tantas tecnologias que precisam ser aprendidas pelo condutor. Até que comecem os problemas e o cansativo carnê para pagar. Se o problema for no painel, por exemplo, é preciso trocar tudo. Não dá para trocar uma pecinha ou componente. Para manter a garantia, é preciso colocar tudo novo. Uma simples lâmpada vira um conjunto óptico inteiro, e por aí vai. Na onda da obsolescência programada, a frustração vem antes do modelo 2027. Tudo em nome do consumo, que deveria ser inteligente, mas não é. É trapaceiro, como as telas que controlam até o que falamos dentro do carro.
Novo emprego
É curiosa a forma atual como os “recursos humanos” realizam o processo seletivo da grande maioria dos trabalhadores: por inteligência artificial. O desrespeito já começa na desumanização do trabalhador, que para buscar o sustento, precisa lidar com o “recurso não humano”. E tudo começa com uma palavra atrante: oportunidade. É o que se fala até assinar o contrato, como se o funcionário fosse o centro das atenções, o craque a ser contratado. O salário até pode parecer pouco, mas tem um conjunto de penduricalhos, vantagens, vale isso e vale aquilo, que até o mais sensato matemático se engana, acreditando ser um servidor do Poder Judiciário. Mas sabemos: o lucro do negócio é o que manda. Consagrada a contratação, o sujeito passa a ser um centro de custo. Vive assombrado com as metas, o desempenho, a motivação, a equipe e todas essas mentiras que eles contam. E as regras? Mudam como o humor do clima.
Distração
Todas essas coisas da vida, o casamento, o carro zero, o emprego novo, tudo isso gera estresse em qualquer sujeito. Nas mulheres, então, é ainda pior. “Não vai engravidar, né”? A saída mais honrosa para lidar com essa pressão toda acaba por ser a distração. Sempre preferível em relação aos fármacos, às terapias e às drogas. No caso de muitos homens, há ainda o futebol. A tábua de salvação masculina. E por falar nele, no esporte bretão, não há nada mais frustrante do que acompanhar a Seleção Brasileira de Futebol. Com a devida licença ao Nobel Garcia Márquez, é como a crônica de uma morte anunciada. Já é assim desde que os casamentos deixaram de ir à Igreja.