Hábil com as palavras, segura de si e cheia de expectativas, a adolescente Rudinéia Palhano de Souza, consegue em poucos minutos de conversa cativar quem lhe ouve contar sua história. Deficiente visual desde criança, hoje com 16 anos ela não percebe sua deficiência como limitação, mas como um impulso para buscar mais. Apaixonada por Português e Literatura, juntou seu amor pela vida e seu desejo de inspirar pessoas em um objetivo: lançar um livro, iniciativa que está em busca com o apoio da família e com a ajuda de suas professoras.
Moradora do interior de Barão de Cotegipe, a adolescente estuda no Colégio Estadual Mário Quintana. Pela manhã tem aulas normais no nono ano do ensino fundamental, em uma turma que conta com 20 alunos. Diariamente ela conta com a ajuda de um dos colegas, que se revezam na tarefa de auxiliá-la quando necessário. Em algumas tardes, frequenta a sala de recursos da instituição, momento em que se dedica, junto com a professora Neiva Matiasso Commanduli, a organizar os textos que elabora em casa para seu grande projeto, que é a escrita de seu livro em português e em braile. “Será um livro bastante diversificado, pois possui um pouco da minha história de vida, tem poesia, música, uma fábula e uma história”, revela a jovem autora, confiante ao destacar que são todas criações autorais.
Coração cheio de amor
Mesmo sem ter definido oficialmente, Rudi – como é carinhosamente chamada – já projeta o nome da obra que está produzindo: Coração cheio de amor. O título, segundo ela, resume seu amor pela literatura, pela escola e, principalmente, pela vida. Também parece definir a característica perceptível que a faz lidar com sua deficiência. “Qualquer dificuldade que a pessoa tenha pode ser vencida quando ela tem determinação. Digo isso porque quando nasci, prematura de seis meses, fiquei na incubadora e nesse momento da minha vida, por uma negligência médica, perdi a visão. Meus pais tiveram que pensar em como se adaptariam comigo, pois para eles era algo novo. Meu aprendizado tanto em sala de aula quanto na minha casa foi gradativo. Eu apresentei demora para andar, mas consegui. Hoje estou no nono ano, cheia de objetivos e o livro é o principal, pois com ele quero fazer com que as pessoas possam se levantar, que elas usem suas dificuldades para evoluir, pois é assim que eu vejo a minha deficiência também, como um passo para a evolução”, enfatiza.
Em paralelo, Rudinéia busca com o livro a fazer com que as pessoas possam se sentir tocadas pelas mesmas emoções que ela ao viajar pela leitura. Hoje ela tem acesso somente ao livro didático em braile, mas faz suas demais leituras em áudio-books que encontra na internet. “Passo horas lendo, porque aí eu posso viajar. Quero com o livro levar para o mundo tudo aquilo que a leitura agrega: uma boa capacidade de imaginar, de se expressar bem, porque a leitura abre para a gente muitos caminhos, fortalece nossas opiniões, traz visões de mundo diferentes”, destaca, ao citar um de seus autores preferidos, Mário Sergio Cortella.
Psicopedagoga e responsável por acompanhar Rudinéia na sala de recursos, a professora Neiva destaca que a chegada da aluna na instituição há mais de quatro anos desafiou a escola positivamente. “Por atuar na área da educação especial tínhamos eu e outra profissional que atuava conosco, chamada Márcia Bertochi, uma visão maior e por isso demos suporte aos professores. A aceitação do grupo foi fantástica, pois todos se empenharam em fazer o melhor por ela. Como ela já veio com o domínio do Braile, agregamos mais conhecimento. Hoje me sinto muito grata por trabalhar com ela, pois a cada dia aprendo mais com ela, pela sua força de vontade. Infelizmente não temos muitos livros em braile, mas buscamos tecnologias assistivas para que que ela possa ter acesso. Para a escola como um todo é muito bom tê-la conosco”, resume, ao elogiar também a força de vontade da aluna em ter autonomia. “Ela é muito independente e faz questão de mostrar que é capaz e se autodesafiar”, ressalta.
Apelo para publicação do livro
A assessora da 15ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE), Rosane Cardoso, responsável pelo atendimento especializado em educação, destaca o trabalho realizado nas salas de recursos das instituições e faz um apelo para a publicação do livro da aluna. "Estamos buscando apoio junto à editoras ou mesmo empresas que se disponibilizem a investir nisso para conseguirmos a compilação desse material em formato de livro, para levá-lo à Feira do Livro de Porto Alegre, em novembro, onde já conseguimos espaço para o lançamento. Estamos agora em uma corrida contra o tempo para organizar este material e empenhados conseguir parceiros para que o sonho da Rudinéia se torne realidade, ou seja, para que o livro dela possa ser publicado em braile e em língua portuguesa e assim, mais pessoas possam conhecer sua história, pois é muito bonito ver uma criança como ela lutando contra a adversidade e mostrando que é possível realizar seus sonhos com dedicação e afinco”, completa. Quem tiver interesse em ajudar com recursos ou meios para a publicação do livro pode procurar o setor de atendimento especializado em educação na 15ª CRE, junto à Praça da Bandeira em Erechim, ou pelo telefone 3520 2800.